Vigília

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Atualizado em 18/10/2024 às 11:10, por Giseli Barros.

Ouça o áudio de "Vigília", da colunista Giseli Barros:

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Luzes apagadas. A casa se prepara para o sono. Em poucos minutos, silêncio. É preciso adiar a manhã. O corpo relaxa, explora o espaço da cama. Os músculos se acomodam. O pensamento desacelera lentamente. Perda quase total da consciência. Um carro corta a rua de forma veloz. Do quarto, leve incômodo. O corpo novamente se ajeita. Tudo calmo ao redor. No entanto, passos se aproximam do portão principal. Alguém chora baixinho. Uma voz masculina tenta se explicar. Os passos recomeçam e revelam a presença de uma mulher. Suspensão das vozes. No interior da casa, a mente começa a flutuar e os acontecimentos se desmancham. Nova interrupção. O salto dos sapatos parece quebrar o concreto do calçamento. Sem chance nessa noite de mínima reconciliação.

Sono.

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No forro do telhado, passinhos leves. Um cachorro acorda. Um gato troca de posição no tapete macio. Os passos se distanciam. O cachorro sente que é preciso tomar a sua posição de guardião do lar. Seria prudente, talvez, acordar o humano. Desiste, porém, da decisão. Volta até a sala, desvia-se do gato, que, intencionalmente, ignora a sua presença. Terá de agir sozinho. Atenção redobrada. Os passinhos cada vez mais suaves. Deseja latir bem alto, mostrando a sua posição de comando. O plano é afugentar o intruso. Desiste. Prefere a prudência. Caminha em direção à porta da cozinha. Sabe como chegar até o quintal. Há uma passagem, especialmente, para ele e o felino. Antes de prosseguir, reconhece a preguiça daqueles que tentam atravessar a noite sem sobressaltos.

Chega ao quintal.

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Movimentos entre as folhagens. Corre. Não quer acordar a casa, mas se prepara para denunciar a presença dos invasores. Suspensão dos movimentos. Aguarda por qualquer precipitação alheia. Escolhe uma posição estratégica. Não permitirá a usurpação do espaço. Dentro da casa, a calmaria.

As horas

es

cor

rem.

Sem combinação, por distração ou desejo de fuga, o encontro. Um filhote de marsupial fica estático. Corpo encolhido. O momento é de espera. É preciso ser perspicaz. Uma ação precipitada pode colocar tudo a perder. Do arbusto, uma família aguarda, apreensiva. A madrugada avança. O arbusto se move. Os filhotes tentam confabular, mas a mãe exige atenção. Proibida a valentia dos tolos. Eles tentam reagir, pois já são independentes. Ela sabe que não. Pede calma. O acidente foi gerado pelo descuido. Um deles tenta argumentar que da bolsa não se admira a noite. De fato, a noite é belíssima. O céu cintila de estrelas e o vento embala flores e galhos de vários tons de verde.

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O cachorro está cansado de ficar à espreita e decide, portanto, verificar se o outro respira. A mãe exige organização do pequeno exército. Estão todos a postos. Perfilam-se grudados a ela. O arbusto se movimenta mais uma vez. Momento final. Frente a frente, o jogo está posto. Ela também é guardiã, ele sabe muito bem. Talvez seja apenas uma família de passagem. Não pode errar em sua avaliação. Reconsidera de novo a proteção da casa. Permanece estático e alerta. Enquanto isso, o exército o encara, já que está pronto para defender a líder. E com uma cordialidade própria daqueles que, distraidamente, compreendem o princípio das coisas, eles colocam as cartas na mesa. O filhote retoma o seu lugar, juntando-se aos demais para seguir viagem. A madrugada acelera. No tapete da sala, o gato ronrona gostosamente.


Giseli Barros

Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana