Feminicídio e Psicanálise: Matar para Não Perder
“Quando uma de nós morre vítima da violência oriunda do patriarcado, do machismo e da misoginia, todas nós morremos um pouco”. (Lívia Guida)
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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos.
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Recentemente, a notícia da ocorrência de um crime hediondo e horripilante, com cenas características de um filme de terror, ocorrido bem perto de nós, aqui em Mariana, deixou estarrecidos todos que tiveram conhecimento da ocorrência. Um homem de 24 anos foi preso em flagrante nesta terça-feira dia 03 de fevereiro, após confessar ter matado a golpes de facão a companheira de 25 anos e uma criancinha de apenas 2 anos, filha do casal. Os corpos da mãe e da filha foram encontrados abraçados, já sem vida, nos fundos do imóvel onde moravam, com vários cortes profundos nos corpos. Como cristão, rogo a Deus que acolha em Seus Braços as duas vítimas e dê conforto aos familiares e ainda, por mais que alguns cristãos equivocados desejem a morte cruenta do pobre infeliz que cometeu esse crime, que Deus tenha misericórdia dele.
Diante dessa notícia, surge no ar uma pergunta inquietante que não quer se calar: o que faz com que um ser humano cometa um crime como esse de tamanha bestialidade? Talvez a Psicanálise possa explicar. Portanto, vejamos.
O feminicídio é a forma mais extrema e impactante da violência contra a mulher. Mais do que um crime individual ou um episódio isolado de fúria descontrolada, revela uma ruptura profunda na capacidade de dialogar e de se relacionar com um outro ser humano. Sob o enfoque da psicanálise, o feminicídio não pode ser compreendido apenas como um ato impulsivo, mas como o desfecho trágico de um problema psíquico marcado pela incapacidade de lidar com o desejo do outro.
Na perspectiva psicanalítica, o ser humano se constitui pela linguagem. É pela palavra que o indivíduo desabafa, traz para fora os seus traumas, elabora frustrações, nomeia perdas, reconhece limites e expressa respeito pelo seu semelhante. Quando essa via simbólica falha, o conflito tende a deslocar-se para o próprio corpo, com as mutilações ou suicídio ou para o corpo do outro, sob a forma de agressão física, às vezes fatal.
O feminicídio surge como uma passagem direta ao ato, momento em que o sujeito abandona o campo da linguagem e responde à angústia com uma violência extrema, estúpida e concreta. Em muitos casos, observa-se um narcisismo profundamente ferido. A mulher deixa de ser reconhecida como sujeito autônomo e passa a ocupar o lugar de objeto de posse, destinado a sustentar a imagem e a identidade do agressor e tendo que agir e se comportar exatamente como o outro deseja, exige e impõe. Quando ela rompe com isso, recusa ou deseja fora dessa lógica, o agressor vivencia essa separação como uma ameaça intolerável à própria existência psíquica. Não se trata de amar demais, mas de não suportar a perda do controle sobre a outra pessoa.
Freud descreveu a presença de uma pulsão destrutiva, a pulsão de morte, que pode ser dirigida ao próprio sujeito ou ao outro. No feminicídio, essa força é projetada para fora, encontrando na mulher o alvo sobre o qual se tenta restaurar uma sensação ilusória de poder e domínio. O ato violento surge como tentativa desesperada de silenciar aquilo que escapa: o desejo feminino, a diferença, a alteridade.
A psicanálise contemporânea também reconhece que o feminicídio não é apenas um fenômeno intrapsíquico, mas atravessado pela cultura. Modelos de patriarcado, masculinidade prepotente, machismo exacerbado baseados na dominação, na virilidade rígida e na negação da vulnerabilidade criam sujeitos pouco preparados para lidar com frustração, dependência emocional e separação. Quando o laço amoroso é confundido com posse, a perda se transforma em humilhação, a humilhação, em ódio e, infelizmente, às vezes o ódio em morte.
É de extrema importância ressaltar que compreender psicanaliticamente não significa justificar. O agressor é responsável e deve, com toda certeza, pagar por seus atos. A contribuição da psicanálise está em compreender para prevenir, identificando sinais precoces de violência, padrões de repetição e falhas de simbolização que antecedem o ato extremo. Muitos feminicídios são precedidos por ameaças, agressões psicológicas e físicas, indicando que o crime não surge do nada, mas de uma escalada de violência. É importante que as mulheres percebam isso e tomem as medidas proativas para evitar o desastre fatal, evidentemente amparadas por políticas públicas eficientes e eficazes.
O feminicídio é um crime que atinge não só as mulheres, mas todos nós. Combatê-lo exige não apenas leis, punições e muito menos vingança, mas também um trabalho profundo de transformação espiritual, cultural, simbólica e subjetiva onde a diferença possa existir sem ser vivida como ameaça.
Quem tem ouvidos, que ouça!

Júlio Vasconcelos
Júlio César Vasconcelos, Mestre em Ciências da Educação, Professor Universitário, Coach, Escritor e Sócio-Proprietário da Cesarius Gestão de Pessoas










