Mostra de documentários e lançamento de jornal lota cineteatro

O evento marcou o encerramento de duas disciplinas do curso de Jornalismo da UFOP

Atualizado em 11/02/2026 às 12:02, por Joyce Campolina.

Plateia do cineteatro

Com casa cheia, Cineteatro de Mariana recebe o Jornal Olhares e mostra de documentários no último dia 9. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Com exemplares do Jornal Olhares cuidadosamente dispostos sobre as poltronas do Cineteatro Municipal, a noite do dia 9 de fevereiro entrou para a memória cultural de Mariana. Antes mesmo de as luzes se apagarem, as páginas fotográficas já cumpriam seu papel: provocar, revelar e contar histórias. E quando a tela acendeu, cinco documentários transformaram a sala em território de memória, política, afeto e pertencimento.

A mostra reuniu as produções “Te amo com a memória, imperecível”, “Lavras Novas: Espaço e Afetividade”, “Da roça à cidade: percurso dos pequenos produtores rurais”, “Por que ficamos?” e “Caso Armando”. Cinco olhares distintos, atravessados por um mesmo gesto, contar Minas a partir de quem vive, sente e constrói suas histórias.

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A organização do evento também chamou atenção. Enquanto aguardavam o início das exibições, os espectadores folheavam o jornal produzido pelos estudantes, em uma experiência integrada entre fotojornalismo e audiovisual.

 

Achei que foi tudo muito bem-organizado. A ideia dos jornais em cima das poltronas foi muito legal, porque enquanto as pessoas esperavam o início dos filmes, elas liam e viam esse outro trabalho. Deu pra sentir muito o esforço da galera. E sobre os documentários, achei todos muito envolventes. Não teve um minuto que eu tirei o olho da tela. Trouxeram histórias muito reflexivas, coisas que a gente deixa passar despercebido. Foi um evento lindo, me emocionei muito

Brenda Rogai, espectadora

 
 
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Memória como resistência

Entre os destaques da noite esteve “Caso Armando”, que resgata a atuação da ditadura militar em Ouro Preto a partir das repúblicas estudantis, tendo como fio condutor a trajetória de Armando Lopes. A produção mergulha em documentos históricos, visita o antigo DOPS e tensiona a importância da memória em tempos de disputas narrativas.

“Esse documentário é uma tentativa de lembrar de tudo o que aconteceu, para que não se repita novamente”, afirma Douglas Júnio, um dos diretores do documentário. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

 

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A repercussão ultrapassou os limites da cidade. Fernanda Reimberg, natural de Barbacena, fez questão de estar presente para acompanhar a estreia do filho, Gustavo Reimberg, um dos diretores do documentário.

“Fui até Mariana. Achei muito bacana a iniciativa dos meninos.. É muito importante resgatar essa memória e a importância de lutar pelo que se acredita”, afirmou. Para ela, a noite foi marcada pela potência dos enredos e pelo compromisso em retratar histórias fundamentais para a Primaz de Minas.

Da tela para a estrada

Se “Caso Armando” reacendeu a memória política, “Lavras Novas: Espaço e Afetividade” despertou desejo de descoberta. O documentário, que investiga os laços afetivos entre território e pertencimento no distrito de Ouro Preto, impactou inclusive quem não conhecia a região.

Durante narração do documentário, o diretor João Henrique afirma a necessidade do documentário em compreender espaço e identidade. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

O casal Felipe Queiroz e Julia Ribeiro, de Brasília, saiu da sessão com planos concretos. “Como a gente não é daqui de Minas, não sabe muito bem dos distritos. Eu nunca iria saber da beleza de Lavras Novas se não fosse o documentário. Amanhã mesmo estamos partindo pra lá”, disseram, confirmando o poder do cinema de mobilizar sujeitos e deslocamentos.

 

Histórias que se cruzam

A noite também foi atravessada por encontros simbólicos. José Max, personagem do documentário “Por que ficamos?”, que retratou a situação de 11 mil pessoas que moram em ocupações da chamada Cidade Alta, de Mariana esteve presente na exibição e se emocionou ao ver na tela não apenas sua própria história, mas também a de pessoas que conhece.

Trajado com a blusa do movimento que luta pelo direito à moradia nas ocupações, José Max é aplaudido pelo público presente. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

“Foi muito lindo mesmo. Eu gostei muito também de ver a história das agricultoras, porque eu conheço elas também, têm uma história muito forte”, afirmou, fazendo referência a “Da roça à cidade”, que acompanha pequenos produtores rurais e o vínculo vital entre campo e cidade.

Para Pedro Vieira, diretor do filme, o documentário surgiu a partir da importância em se conhecer a identidade e a história por trás de quem alimenta as mesas na região; - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

 

Já o documentário “Te amo com a memória, imperecível” tocou o público pela delicadeza ao tratar amor, luto e permanência a partir de fotografias escolhidas pelos próprios personagens. O filme evidenciou algo essencial: a importância da escuta.
 

A parte que a mulher fala que foi super importante pra ela ter aquela conversa, que foi como se estivesse conversando com uma psicóloga… eu acho que é isso, a importância de se conversar sobre o que afeta, sobre as memórias das coisas que nos atravessam.

Gisele Oliveira, estudante de Jornalismo.


 

Te amo com a memória, imperecível; citação direta à Adélia Prado abriu a mostra dando espaço a sensibilidade de sentimentos inerentes à ser humano: amor, luto, saudade e aceitação. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz


 

Mais que exibição, experiência

Com cadeiras ocupadas por moradores de Mariana, visitantes de outras cidades e personagens dos próprios filmes, a mostra se consolidou como mais que um encerramento acadêmico. Foi um gesto coletivo de produção de memória.

O Jornal Olhares e os cinco documentários revelaram uma geração de estudantes comprometida com narrativas locais, com histórias silenciadas e com personagens que, muitas vezes, passam despercebidos no cotidiano. Naquela noite, Mariana não apenas assistiu a filmes. Reconheceu-se neles. E quem estava ali poderá dizer, no futuro, que viu desde o começo.


Joyce Campolina

É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas