Crimes causados pela cultura machista

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Atualizado em 14/02/2026 às 17:02, por Andreia Donadon Leal.

Mulher no escuro

Foto: Molly Blackbird/Unsplash

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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Andreia Donadon Leal:

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Sarah não tem culpa. Ela é vítima. Até quando Sarah será alvo de ameaças por parte de pessoas que não compreendem sua dor?

Sarah é uma mulher que muitos de nós, incluindo a grande parte dos internautas, não conhecíamos até a tragédia que a atingiu, ampliada pelas redes sociais. Ninguém sabe o que acontece com o casal entre quatro paredes; ninguém entende o que se passa nos corações alheios. Ninguém tem o direito de atacar uma mãe no funeral dos seus filhos. Ninguém tem o direito de julgar e criticar, Sarah.

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Os filhos de Sarah foram brutalmente assassinados pelo pai. Ponto final. Após esse ponto, não há espaço para julgamentos. Sarah não tem culpa porque o “marido” resolveu dar fim à vida dos filhos, pois não aceitava o fim do casamento.

A internet tem dado voz a milhares de pseudo-juízes que julgam, culpabilizam e penalizam a vida dos outros sem qualquer critério ou conhecimento de causa. Os justiceiros das redes sociais são implacáveis em suas condenações. Muitos aguardam por notícias devastadoras para despejar comentários de ódio. Aqueles que discordam se tornam alvos de ataques ofensivos, resultando em um bate-boca incessante no tribunal de influenciadores das redes sociais. A coragem que os juristas das redes demonstram atrás das telas é ilimitada. Todos têm respostas prontas e conselhos para tudo.

Hoje, nossas vidas se assemelham a um reality show. Somos julgados por um big tribunal composto por milhares de pessoas que, em busca de polêmicas ou notícias impactantes, escarafuncham a vida dos outros, como se se alimentassem do infortúnio alheio.

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O que aconteceu em Itumbiara foi o assassinato brutal de duas crianças pelo pai, que, em um ato de vingança contra a mãe, ceifou a vida dos filhos. Não se sabe do turbilhão de ódio que povoa uma mente revoltada. E as ações subsequentes desse turbilhão podem ser desastrosas. Nesse caso, resultou em um ato extremo de destruição. O assassinato e o suicídio revelam o quanto a cultura da vingança faz um homem ser incapaz de lidar com a perda e frustração. Quem ama, cuida. Quem ama seus filhos, enfrenta adversidades inimagináveis, para garantir o melhor para eles.

Quem são aqueles que ameaçam a mãe dos meninos assassinados? Covardes que se aliaram ao pai? Essa é a punição macabra direcionada a Sarah: mãe, vítima da morte de seus filhos, assassinados pelo marido.

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Devemos acolher essa mãe. É hora de julgar menos e sermos mais empáticos. A dor é dela, a perda é dela e das famílias envolvidas. Os filhos são dela. Sarah é a mulher que deu à luz e criou essas crianças. Que Deus conforte o coração dessa mulher e de toda a sua família. Que Deus toque a sensibilidade e empatia de quem julga a mãe. E que cessem as ameaças contra Sarah. Ameaça é crime! Sarah precisa de acolhimento.

Não há defesa para esse crime tão brutal. Quem coloca a culpa na mulher por esse ato tão horrendo do outro, apoia os assassinatos cometidos por esse homem. Estamos vendo mais um caso de crimes causados pela cultura machista – o do assassinato de crianças e o do linchamento de Sarah nas redes sociais.


Andreia Donadon Leal

Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros