Bifurcações
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Foto: Einar Storsul/Unsplash
Ouça o áudio de "Bifurcações", da colunista Giseli Barros:
Depois de um dia exaustivo, ainda era preciso separar documentos para assuntos burocráticos do dia seguinte. No entanto, isso poderia esperar mais alguns minutos. Momentaneamente, mergulhada no silêncio, despiu-se dos problemas para aproveitar o banho. Estava na casa da infância. Após idas e vindas, decidiu pousar ali definitivamente. Era o lugar onde as memórias descansavam. Sentia-se confortável por estar entre paredes conhecidas. Do passado, guardava poucos objetos, e a decoração era outra, escolhida por ela, após o seu retorno. Lembrava-se da tarde em que abriu portas e janelas, lavando tudo, para que pudesse se instalar de maneira confortável. Satisfeita com o trabalho feito, recostou-se na sala, sentindo o vento da noite que chegava para lhe fazer companhia.
Mais de uma década a separava da sua chegada, mas a carícia do vento tocando a sua pele trazia a mesma sensação do primeiro dia. Deixou-se ficar na sala por longo tempo, até resolver cuidar das questões que não poderia adiar para a próxima manhã. Reviu as anotações da véspera, fez apontamentos, enquanto vasculhava uma velha pasta-arquivo. Um pequeno envelope chamou-lhe a atenção. Dentro dele, um bilhete. O papel estava amarelado pela ação do tempo, mas mantinha-se inteiro. Reconheceu a escrita. Letras cuidadosamente grafadas, revelando um pouco sobre o seu remetente. Sentiu o coração pulsar e o rosto corar como há muito tempo não acontecia. Lembrou-se de um fim de tarde em que se encontraria com amigos após o trabalho. Na mesa, um papel dobrado, colocado discretamente sob um peso de metal. Leu com atenção. Ninguém percebeu a sua alegria.
A vida alterou a rotina costumeira. Alguns planos se desenhavam nas conversas interrompidas pelas obrigações de cada um. Planejamentos confusos e um futuro incerto. Ambos seguiam os dias, combinando casualidades. Forjavam o controle do tempo. Algumas confidências. Certos medos compartilhados. Aguardavam a certeza. Não desconfiavam que o complemento já era o ponto final. Silêncios. Na espera do dia que viria, erraram o passo ou a regência. Ela não recebeu o bilhetinho discreto. Ele não a viu ao final da tarde. Atrasou a saída de propósito, enquanto o outro adiantou o relógio. Passavam pela mesma rua, apreciando os casarões, porque preferiam disfarçar o prazer que sentiam na companhia que faziam um para o outro. Escolhiam a ausência do amor, sem perceberem em que ponto se dava a separação.
Estariam talvez na mesma cidade, mas sendo outros. As ruas do presente acolhiam outras histórias, com outros jovens que abraçavam o futuro, confidenciando amores. Naquela noite, comparava a fragilidade do papel com as mãos que revelavam a passagem do tempo. A vida resistia na caligrafia das poucas linhas do bilhete. Dobrou cuidadosamente o seu segredo. Seria tarde? Da janela, a noite enegrecida conversava com ela, compreendendo os seus desejos.

Giseli Barros
Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana










