A inscrição
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Ouça o áudio de "A inscrição", da colunista Giseli Barros:
Na sala, a sua carteira era a do canto, perto do armário já gasto pelo tempo. Estudava no segundo andar. Nos dias mais quentes ou de chuva fina e insistente, mantinha a janela aberta. Por se reconhecer tímido, pouco falava com os colegas. Parecia até desatento. Uma voz grave costumava inquirir a sua participação nas palestras, das quais tentava se esquivar, desviando estrategicamente o olhar de seus interlocutores. A janela quase sempre aberta funcionava como uma espécie de refúgio, a fuga perfeita das situações indesejadas. Em alguns momentos, perdia-se na observação da paisagem que misturava estilos tão diversos. Perguntava a si mesmo o que aquelas construções guardariam em suas memórias. Imaginava quantos alunos teriam ocupado a mesma carteira, quantos mais teriam escrito na mesma mesa, quem teria observado, assim como ele, as casas vizinhas, ou deixado sonhos e choros perdidos por ali.
Costumava ter poucas pessoas ao redor. Sem objeção, aceitava a convocação para as atividades em grupo. Não deixava de participar dos jogos, inclusive, na quadra da escola, mas, assim que podia, retraía-se. Achavam-no diferente. Havia interesse em especular sobre o seu comportamento. Porém, como não dava espaço para conversas avulsas, logo tudo se perdia entre cálculos, mapas e textos a escrever. Ninguém percebia, no entanto, a sua atenção para a menina que se sentava um pouco distante dele, num ponto estratégico, de onde conseguia se comunicar com todos da sala. Enquanto ele escolhia o silêncio, ela se comunicava habilmente, até mesmo pela forma como entrelaçava os dedos nos próprios cabelos, longos e castanhos.
Muitas vezes, torcia para que um professor ou colega da turma o escolhesse para o grupo mais animado, justamente aquele do qual ela faria parte. Poderiam, talvez, trocar alguma palavra. Ele gostava de Matemática, sabia explicar o funcionamento das coisas. Em casa, ensaiava diálogos, pensando numa forma de abordá-la. Escolhia a melhor camisa do uniforme. Andava devagar, aguardando a chegada da amiga. Poderia, sim, ser a sua amiga, caso ele tivesse a coragem de se aproximar. Aguardava o dia certo. Para a sua surpresa, foi numa sexta-feira, o momento mais especial do ano. Ele chegou atrasado e a turma já realizava a tarefa solicitada no início da aula. Pequenos grupos participavam da elaboração de um projeto que seria apresentado na semana seguinte. Ouviu alguém chamá-lo. Identificou o grupo. Havia uma carteira vazia. Sentou-se ali, atento ao que diziam. Evitava olhar para ela, para que ninguém soubesse do seu segredo. E tamanha foi a sua alegria ao sentir o perfume que vinha dos cabelos dela, enquanto a amiga brincava, desfazendo os cachos dos longos fios.
Aos poucos, começaram a ouvir a sua voz. Fez cálculos e sugeriu materiais ao grupo. Aguardou o final de semana passar, revisando a sua parte do trabalho. Chegou animado na aula seguinte. Hesitou ao pegar a carteira para ficar ao lado da menina que encantava os seus dias. Sem saber o que fazer, ajeitou-se como pôde. Agora, estavam um de frente para o outro. Ela olhava-o com atenção. Reparava na maneira como ele conseguia entender os comandos da atividade. Por um instante, viu que ela sorria. Ficou confuso. Não sabia se aquele sorriso teria sido direcionado a ele ou se, por alguma razão, sorria porque os outros também a admiravam. Olhou novamente em sua direção. Sim, ela sorria para ele. Se tivesse coragem, poderiam conversar no recreio. Chegaria o dia em que ele a convidaria para um passeio. Achava bonito quando um casal passava por ele de mãos dadas. Valeria a pena aguardar a passagem do ano, viver a incerteza do que viria. Estavam ali muito próximos, finalizando o último trabalho do ano. Sentia-se feliz.
Na medida em que a aula caminhava para o fim, calculava o tempo em que revelaria os seus sentimentos. Tinha apenas a leve certeza de que ela estaria na mesma escola. Talvez fossem para salas diferentes. Viviam os dias derradeiros do ano letivo, com um trabalho importante para concluir a etapa. Ela, com a alegria própria de quem se prepara para o voo, subitamente, pegou o corretivo e fez um coração na lateral do armário, o mesmo localizado após a última janela da sala. Queria registrar o seu nome para sempre. Um dia estariam em outros lugares, ela disse. Ana. De repente, um silvo bem longo, provocou o alvoroço no ambiente. Barulho de carteiras sendo arrastadas, vozes e assobios. Ele voltou para o seu lugar de costume. Acenou para o grupo. Deixou que todos saíssem apressados pela porta. Guardou, vagarosamente, o que estava na mesa em sua mochila. Foi, então, até o armário da sala e escreveu do lado oposto: “Ana, amo você”, deixando registrado, no cantinho da sala, um segredo a ser revelado num dia que estaria por vir.

Giseli Barros
Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana










