Janeiro branco?
In memoriam de Aliete/Eliete/Geralda
Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “editoriais”
Missão impossível ter saúde mental neste século de múltiplas tarefas, notícias execráveis, pandemia, pandemônio, morte batendo à porta, morte por falta de oxigênio em UTI, toxicidade e violência nas vielas, competições entre desiguais, cizânias, justiça patinando em análises processuais, pessoas em processos de autoafirmação ou loucura. Preciso puxar meus freios/minhas rédeas, para não enlouquecer de estresse; morrer de enfarto, pânico, revolta ou depressão. Que minha mente possa equilibrar-se feito rodopio veloz e preciso de bailarina rodopiando na lua amarela. Trajo luto no peito dorido em tardes vazias na varanda de casa. Que mistério e força inominável trazem as brumas que engolem as nuvens algodoadas? Minha infância esvai-se na última batida do coração de mãe: cardiopatia! Sufoco meu egoísmo para vislumbrar mãe bater suas asas para o infinito, livre, solta, liberta. Que céu borrado recebe meus sonhos? O inconsciente emerge em pesadelos consecutivos, insônias e tristezas fartas. Minhas sessões de psicanálise e psiquiatria fazem-se necessárias. Limpo o cavalete jogado no terraço. Abro os potes de tintas ressecadas. Tela branca/vazia/ imaculada/mãos espalham gotas vermelhas, laranjas e verdes. Ninguém compreende minha pintura, aqui! Canto músicas da adolescência em sessões de musicoterapia. Freud sabia a imensidão da dor espiritual. Van Gogh desafogou suas tristezas em girassóis impressionistas. Os depressivos nunca foram loucos, só doentes, doentes e engravidados pelas noites insones, vendo o sol nascer, brotar, se esparramar pelo céu. Guardo no rosto expressões de tristeza, mas não sou profundamente triste. Há alegrias escondidas em mim, prestes a explodirem. Meu olhar traz profundezas oblíquas, desconfianças naturais, sombras e luzes. Tenho porte de amor à disposição para quem quiser. Para quem desejar, sou mel, sou fel… Disparo vocábulos, letras e orações, gotas suadas em liberdades de expressão. Dói-me, profundamente, criticar péssimos governos e governantes. Assassinaram Eliete/Aliete/Geralda e a jogaram num matagal em Santa Bárbara, MG. Não tenho palavras à altura para homenagear Eliete, rosa colhida, decepada brutalmente do canteiro. Nem Quintana, nem Cecília explicam o motivo dessa colheita de rosa! Meu Deus, que triste mundo é este? Lúcifer aparece todos os dias, possuindo seres desavisados, descuidados, doentes. Rezem, pelo amor à vida, para espantar o demônio do corpo! Tratem-se, pelo amor de Deus, para abrandar os males do corpo e os arroubos da alma. Justiça, ainda que tardia, seja feita. Será? Elietes/Alietes/Geraldas vivem no coração de todas as mulheres, vítimas de feminicídio ou desejosas de JUSTIÇA! Gira, Eliete/Aliete/Geralda, pelos céus azuis, claros; pelos canteiros de rosas vermelhas, laranjas, brancas… Cadê a esperança do nosso coração choroso? A poesia. Poesia é oração dos que amam. Poesia salva, aprumando filmes linguísticos para cantar versos de AMOR PULSANTE vinicianos: “amo-te tanto, meu amor… Amo-te como amigo e como amante / numa sempre diversa realidade… / Dentro da eternidade e a cada instante / Amo-te afim, de um canto amor prestante / E te amo além, presente na saudade. / Amo-te enfim, com grande liberdade / Dentro da eternidade e a cada instante…”
Som de sirene de ambulância se silencia nas brumas. Janeiro branco libertou mãe. Janeiro branco colheu, abruptamente, Elietes/Alietes/Geraldas; janeiro branco, motivo de Freud, Lacan, Melanie Klein, Nise. “Não se curem além da conta”, mas procurem equilíbrio entre corpo e alma. Não olhem demais pra trás, “quem olha para trás, fica”. Janeiro branco: POESIA VIVA. Janeiro branco: JUSTIÇA VIVA! Janeiro branco: oração em dobro. Janeiro: cuidado redobrado e isolamento. Janeiro branco: livrai-nos das doenças físicas, mentais e das do descaso, que deixa faltar oxigênio em UTIs…
(*) Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura pela UFV e autora de 16 livros; Membro efetivo da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e Presidente da ALACIB-Mariana
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Andreia Donadon Leal
Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros










