Vazamento de esgoto preocupa moradores da Rua do Seminário
Problema antigo se agrava em dias de chuva e afeta circulação e qualidade de vida na vizinhança
Além do vazamento de água e esgoto na Rua do Seminário, bueiro com tampa quebrada preocupa moradores - Foto: Larissa Antunes/ Agência Primaz
Moradores da Rua do Seminário, em Mariana, enfrentam um problema recorrente de vazamento de esgoto que, segundo relatos, se intensifica em períodos de chuva e já dura anos. A situação afeta a circulação de pedestres, invade residências, provoca mau cheiro constante e levanta preocupações de saúde pública.
De acordo com Sérgio Barbosa, morador da via há cerca de um ano, o problema se intensifica quando chove. “Não precisa nem ser uma chuva muito intensa para o problema começar”, afirma.
Segundo ele, em algum momento, o SAAE teria feito uma ligação entre a rede pluvial e a rede de esgoto nas proximidades de um bueiro em frente à sua residência. “A partir disso, toda vez que chove, a água não tem vazão suficiente e ela extravasa. E aí ela toma conta de toda a rua”, explica.
Sérgio relata que o transtorno se estende por praticamente toda a via. “É bem constrangedor inclusive, porque a gente vê frequentemente as crianças que frequentam aqui o Guarany brincando no meio da água, que é uma água de esgoto.”
Ele também observa que muitos estudantes que passam diariamente pelo local talvez nem percebam que “a água empoçada, se trata de esgoto”, já que o centro histórico já apresenta problemas pontuais de mau cheiro.
A Rua do Seminário é acesso ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), campus da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), ao Jardim (Praça Gomes Freire) e ao campo do Guarany. Para os moradores, o fluxo intenso agrava a situação.
É um problema bem grave. Primeiro porque não é normal, né? Uma rua ficar com esgoto transbordando. E segundo porque é uma rua movimentada
Além do transbordamento, há problemas estruturais. Segundo ele, a tampa de um dos bueiros está quebrada. “Só tem metade da tampa. A outra metade foi se quebrando.” Ele alerta ainda para o risco de acidentes, principalmente com motociclistas.
video 1.mp4
Água misturada a esgoto se espalha pela Rua do Seminário após períodos de chuva, dificultando a circulação de pedestres e veículos - Vídeo: Sérgio Barbosa
Problema antigo e recorrente
Morador da rua há mais de 20 anos, Ribamar Moreira afirma que a situação piorou nos últimos anos. “Piorou uns anos para cá. Dois, três anos que realmente foi aumentando o problema.” Segundo ele, as intervenções realizadas não têm resultado duradouro. “Eles vêm, desentopem. Da hora que eles vão embora, o negócio tá vazando de novo. Nem uma hora começou a vazar de novo”, denuncia.
Ribamar relata que o esgoto frequentemente escorre pela superfície. “Sempre sai um papel higiênico, isso aí tudo ali”, descreve. Ele também afirma que o problema não ocorre apenas quando chove. “Aqui é sempre. Tem hora que aumenta, tem hora que diminui.”
Segundo o morador, há casos em que o esgoto retorna pelas tubulações e invade casas. “Sai dentro das casas ali. Volta tudo.” Ele relembra um episódio em que vizinhos viajaram e, ao retornarem, encontraram a residência tomada pelo refluxo do esgoto. “A hora que eles voltaram, tava tudo… o vaso volta tudo.”
Ribamar também aponta que a rua está localizada em um ponto mais baixo, o que favorece o acúmulo da água. “Como aqui é mais baixo, aqui empoça o esgoto, empoça o barro, fedendo, empoça tudo.”
Queixas sobre manutenção e limpeza
Sérgio afirma que, no final do ano passado, a prefeitura teria iniciado uma obra para resolver o problema, mas os trabalhos não foram concluídos. “Locaram uma casa aqui próxima, colocaram equipamento, mas no fim das contas desistiram da obra.” Segundo ele, um trator chegou a aprofundar a calha do córrego ao final da rua. “Ajudou um pouquinho a situação, mas não resolveu o problema.”
Moradores também mencionaram que, antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à cidade, teria sido lançada brita nos bueiros da região. Segundo relatos, parte desse material teria entrado na rede de esgoto, causando entupimentos.
Sérgio afirma que uma vizinha precisou contratar os serviços de um encanador particular e arcar com custos para resolver o problema, até que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) posteriormente realizasse intervenção.
Marildes Sena, moradora da rua há 35 anos, afirma que os bueiros não recebem manutenção adequada. Segundo ela, em alguns pontos da rede, ainda são utilizadas manilhas antigas de barro que estão há muitos anos sem manutenção. “Os bueiros aqui não são limpos. Isso aí é de muitos anos”, afirma.

A moradora também se queixa da atuação da gestão municipal na execução e na falta de fiscalização das obras realizadas. Segundo ela, apesar de a cidade investir no “discurso sobre turismo”, situações básicas seguem sem solução. “Fala do turismo, mas não entrega no turismo”, afirma.
Marildes afirma se sentir constrangida ao ver estudantes e visitantes circulando pela rua em meio ao mau cheiro e à sujeira. “Eu fico com vergonha dos alunos. Uma cidade tão rica quanto Mariana e com tanta sujeira”. Para Sérgio, o sentimento é o mesmo, “muito desconfortável”, lamenta.
Marildes também relata constrangimento com a presença de turistas. “Eu já cansei de ver turista desviando assim, família…que vergonha.” Segundo ela, em um episódio, uma visitante sujou o vestido ao passar por um trecho onde haviam fezes espalhadas na via.
Você nunca viu uma chefia vir fiscalizar ou para conhecer aquele problema.” Para ela, a cobrança não é individual, mas coletiva. “A gente não quer para a gente. A gente quer aqui é para nós. Arruma essa rua

Impactos na saúde e no cotidiano
Os moradores classificam a situação como um problema de saúde pública. “Saneamento é saúde”, afirma Marildes. Sérgio reforça: “Muita gente passando, estudantes, crianças acaba sendo um transtorno. E é um problema de saúde, né, que é saneamento.”
Sérgio relata um “odor constante, é a rua toda que tá cheirando mal, porque ela tá banhada de esgoto”. Além disso, os moradores afirmam que veículos espalham a água contaminada para dentro das casas, fazendo com que os moradores precisem assumir a limpeza da rua por conta própria.
Marildes afirma que, após os episódios de transbordamento, o serviço não é realizado pelo poder público. “No outro dia é a gente que tem que ficar raspando, a gente que tem que ficar lavando, é a gente que tem que ficar se virando para as coisas”, diz
Segundo a moradora, o acúmulo de sujeira e resíduos após as chuvas exige esforço constante dos residentes. “Eu limpo aqui da minha garagem pra cá, eu varro até esse bueiro, para não ficar essas poças d’água. É muito complicado”, afirma.
O que diz o SAAE
Questionado acerca dos problemas recorrentes na Rua do Seminário, o SAAE de Mariana afirma que “não procede que tenhamos realizado essas ligações entre rede pluvial e rede de esgoto”. Segundo a autarquia, as interligações seriam “realizadas por moradores da região, sem o consentimento do SAAE”.
O órgão informou que tem conhecimento recorrente dos episódios de transbordamento e que realiza intervenções preventivas na Rua do Seminário “aproximadamente a cada 15 dias”. De acordo com a autarquia, “não há registros de vazamento de esgoto, exceto em dias de chuva”, além de afirmar que existem registros para solucionar o problema, mas que “não é possível solucioná-lo de imediato”.
O SAAE também informou que há planejamento para resolver a situação por meio do sistema de esgotamento sanitário de Mariana, abrangendo a Rua do Seminário e a parte baixa da região central. A obra depende de autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), ainda não concedida.
A instituição também informou que a rede local, com diâmetro de 150 mm, “não suporta o volume de água pluvial interligado à rede de esgoto” e que está em processo de aquisição de equipamento para identificar ligações clandestinas.
Por fim, o SAAE afirma que os moradores devem entrar em contato para solicitar intervenções preventivas na rede de esgoto, através dos números: (31) 3557-9300 ou 115 ou via Whatsapp.

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.








