Teatro Ouro Preto lota para “Anacronia em Latência”

Espetáculo de alunos de Artes Cênicas mobiliza quase 400 pessoas e transforma reflexão sobre o tempo em aplausos de pé

Atualizado em 02/03/2026 às 17:03, por Joyce Campolina.

“Eu acho que por ser feita em uma disciplina do meu curso e com meus amigos, eu tenho expectativas altas e vendo o trabalho deles ao longo desse processo, eu tenho certeza que vai ser lindo”, afirma Vitoria Goicoechea, estudante de Artes Cênicas. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Na última sexta-feira (27), o Teatro Ouro Preto ficou completamente ocupado para a apresentação de “Anacronia em Latência”, espetáculo de encerramento da disciplina Laboratório de Teatro Multimidiático dos alunos de Artes Cênicas da UFOP. Foram 318 ingressos emitidos, além de aproximadamente 40 convidados especiais. Ao final, até o mais sedentário, levantou para aplaudir de pé.

A movimentação já era intensa antes da abertura das portas. Amigos, familiares, colegas de curso e estudantes da cidade formavam fila na expectativa por uma apresentação que, ao longo do processo de ensaio, já havia alimentado uma certa ansiedade.
 

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Do lado de fora

A experiência teve início do lado de fora do teatro. Um personagem que depois se revelaria uma espécie de “Deus”, responsável pelos “receituários” da vida de cada pessoa, circulava pelo público, chamando com uma cordialidade um tanto teatral cada um para ir até os holofotes, ter sua foto tirada. A proposta incompreendida inicialmente pelos presentes, já indicava que o espetáculo não se limitaria ao palco.

Entre fotos do público e a apreensão para início da peça, a atmosfera do espetáculo foi se criando. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

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Como pontapé inicial da peça, um outro personagem, conhecido como “funcionário do tempo” apresentou a primeira reflexão da noite. “O tempo é meu patrão, o tempo é um chicote, o tempo exige… dança burocrática?”, disse, antes de dançar ao instrumental de “Single Ladies” e provocar risos na plateia. A abertura leve preparou o terreno para o tema central: a forma como o tempo organiza, pressiona e atravessa a vida e as decisões humanas.

 

Beyonce se encontra em meio à contradições e reflexões do tempo em Anacronia em Latência. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz


O tempo como estrutura cênica
 

Em meio a badaladas de um relógio, o público se deparava com travessias corporais entre o tempo e a decisão. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz


Ao entrar no teatro, o público encontrou todos os personagens imóveis no palco. E a cada badalada de relógio, eles mudavam de posição. O recurso simples marcou visualmente a passagem do tempo, ajudando a construir a atmosfera da peça, dividida em atos, alternando entre monólogos, dança e vídeos projetados em telão. 

No primeiro ato, três personagens mortos, vítimas de um acidente de carro, ocupam um espaço que remete a um limbo, enfrentando memórias, arrependimentos e a sensação de que poderiam ter feito escolhas diferentes. “Eu desejo guardar tudo, na esperança de nunca esquecer nada”, diz um dos trechos.
 

“Estou sempre pensando em outras possibilidades do que eu podia ter feito diferente, mesmo sabendo que isso vai me perseguir até o momento que o meu corpo vai estar coberto pela terra”, diz um dos trechos da peça. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz


Na segunda cena, a história do ator João Lemos apresenta as coincidências da vida e a morte do seu avô, no dia 16 de outubro do ano passado, data em que completaria 50 anos de casamento . E foi passando um café sob as luzes do palco, que a reflexão sobre vivências, saudade e a necessidade de estar para quem se ama emocionou os presentes na peça.
 

 

A peça fala muito sobre aproveitar o tempo com a família. Vir pra Ouro Preto é realizar um sonho, mas é difícil ficar longe de quem a gente ama.Minha mãe veio de longe só pra me ver. Acho que todo mundo que vier hoje vai sair reflexivo, mas vai se divertir também

João Lemos, ator e produtor da peça

 

A diretora Bruna Christófaro, professora da disciplina, destacou o envolvimento do grupo. “São alunos muito criativos, muito profissionais. Tem emoção, tem humor. É muito bonito ver essa casa cheia”, disse orgulhosa.

Lágrimas caindo e o público ainda caindo na risada em meio aos atos do espetáculo. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz


Público diverso e identificação

A plateia foi composta por diferentes perfis, mas conseguiu se tornar um momento de muitas primeiras vezes para alguns. Alunas da EJA, como Josélia Júlia da Silva e Aparecida Adriano Alves, participaram pela primeira vez de uma apresentação em teatro fechado. “É a primeira vez que eu venho num teatro assim. A gente já é vovozinha, né? Então é muito bacana participar”, contou Josélia. Aparecida completou: “É um evento a mais pra nós que estuda. É maravilhoso.”

Entre os estudantes, a expectativa também era alta. Bruno Lemos, do curso de Engenharia Urbana, destacou a importância do acesso gratuito. “Cultura de graça é incrível. A expectativa é a melhor possível.” Breno da Anunciação Mendes, estudante da Escola Monsenhor João Castigo Barbosa e aspirante a fotógrafo, afirmou antes da peça que não costumava frequentar o teatro, mas que pretendia registrar o máximo possível da noite. “Acho que vou curtir e tirar muitas fotos hoje”, disse.


Reflexões depois do espetáculo

Aplaudidos de pé, os atores agradeceram a todos presentes, incluindo amigos, repúblicas e familiares que foram prestigiar o espetáculo. - Foto:Joyce Campolina/Agência Primaz


Após a apresentação, o tom foi de impacto emocional e reflexão. Arthur Henrique Procópio afirmou que a peça o fez repensar a própria rotina universitária. “A gente sabe que o tempo é uma coisa que precisa valorizar, ainda mais sendo estudante da UFOP. A peça mexeu comigo porque fez pensar sobre correr atrás do tempo. Mas a vida não é só isso, é também experienciar, é saber viver.”

Com estrutura simples e forte aposta na atuação, “Anacronia em Latência” encerrou a noite da mesma forma que começou, tirando uma foto do público, que aplaudindo de pé, percebeu o tempo congelando com um simples clique em uma máquina fotográfica. Para além de um exercício acadêmico, o espetáculo mostrou a capacidade do teatro universitário de mobilizar público, provocar debate e transformar as vezes vivências pessoais em narrativas totalmente coletivas.


 


 


Joyce Campolina

É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas