Teatro estreia com discussão sobre o tempo na contemporaneidade

Anacronia em Latência mistura teatro e tecnologia para refletir, entre humor e emoção, sobre o tempo na era digital

Atualizado em 23/02/2026 às 16:02, por Joyce Campolina.

Espetáculo gratuito e livre para todos os públicos promete emocionar a mente e o coração de Ouro Preto na próxima sexta-feira. - Foto: Divulgação

Na próxima sexta (27), às 19h30, o Teatro Ouro Preto recebe o espetáculo “Anacronia em Latência”, no Centro de Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), localizado na Rua Diogo de Vasconcelos, 204. A apresentação, gratuita, propõe uma experiência cênica que atravessa o passado, o presente nessa era da tecnologia e futuro, enquanto questiona como vivemos e desperdiçamos o tempo.

Inspirada em "Sonhos de Einstein", do físico e escritor Alan Lightman, a montagem parte do imaginário de 1905, quando Albert Einstein desenvolveu a teoria da relatividade e, na ficção, sonhava com diferentes concepções de tempo. 

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O espetáculo parte da obra, estruturada em sonhos breves que apresentam mundos onde o tempo pode ser circular, acelerado, suspenso ou até inexistente. A partir dessas imagens, a peça constrói então uma dramaturgia que mistura drama e humor para refletir sobre as urgências contemporâneas.
 

Teatro entre as telas

Dirigido por Bruna Christófaro, a obra é uma produção do Departamento de Artes da UFOP (DEART), desenvolvido na disciplina Laboratório de Teatro Multimidiático em diálogo com o projeto de extensão Arte, Teatro e Interatividade. A proposta incorpora tecnologias atuais, dentre áudios, redes sociais e ainda, referências ao Instagram como parte da encenação.

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“A gente busca atrelar as tecnologias atuais com o teatro, que existe desde que a humanidade nasceu”, afirma João Lemos, produtor e integrante do elenco. Segundo ele, a peça dialoga com o ritmo acelerado da vida contemporânea, em que o tempo parece sempre insuficiente.

Para o autor do livro, Alan Lightman, “a tragédia deste mundo é que ninguém é feliz, preso tanto no tempo da dor quanto no da alegria”. No espetáculo, essa frase deixa de ser apenas uma inspiração de literatura e passa a respirar nos bastidores. E entre ensaios e mais ensaios, ecoou para além do processo criativo do elenco.


 

Entre o tempo e as telas, Anacronia em Latência mistura o que o teatro tem de melhor: o drama e o humor. - Foto: João Lemos/Ator e Produtor 

 

Uma temporalidade que atravessa a própria vida

Durante a criação do espetáculo, a morte do avô de João Lemos, seu Carmélio, transformou o que era pesquisa artística em experiência concreta do tempo que escapa. Entre um pré-ensaio e uma viagem necessária de volta ao Espírito Santo, em sua cidade natal, o conceito de relatividade ganhou peso real. “Escolhi então um capítulo que falava sobre o tempo eterno e de como gostaria de ter construído mais memórias com o meu avô”, conta o ator.

A distância de 365 quilômetros da família, necessária para perseguir o sonho artístico em Ouro Preto, deixou de ser apenas geográfica, tornou-se símbolo do próprio esforço. “Correr atrás do meu sonho significa, de certa forma, deixar minha família de lado”, diz o artista.

Entre a dor da ausência e a alegria de realizar um projeto no palco, João vive justamente essa tensão descrita por Lightman: o tempo nunca está onde queremos. Ou ele nos prende no que já passou, ou nos empurra para um futuro que muitas vezes exige renúncia. Em “Anacronia em Latência”, essa contradição para além de sem resolução, é sentida.

 

Um chamado à dualidades

A peça, com cerca de 45 minutos de duração, equilibra emoção e leveza. “Você vai chorar, mas vai rir também”, brinca João Lemos. A intenção não é provocar tristeza absoluta, mas despertar reflexão sobre as escolhas que fazemos, as memórias que deixamos de criar e o tempo que acreditamos ter.

Entre o riso e o luto, entre a pressa e o eterno, “Anacronia em Latência” convida o público a uma pergunta simples e incômoda: se o tempo é relativo, o que estamos fazendo com o nosso?
 

Ficha Técnica

Direção: Bruna Christófaro

Dramaturgia: Jéssica Jannuzzi

Elenco: Clara Lloyd, Gustavo Silva, Iann Eduardo, Jéssica Jannuzzi, João Lemos, João Andrade e Pedro Martins

Iluminação: Lilith Lacerda

Sonoplastia: Clara Lloyd e Mayara Santos

Produção: Clara Lloyd, João Lemos e Mayara Santos

Assistente de Produção: Lívia Estrella

Cenografia: Bruna Christófaro

Contrarregras: Grazi Cleodolpho e Yasmin Porto

O evento é presencial, com duração prevista até as 20h30. Os ingressos são gratuitos e estão disponíveis pela plataforma Sympla.


Joyce Campolina

É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas