O predador
Coluna-poema de Giseli Barros
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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Giseli Barros:
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Sacode da saia a poeira do terreiro
Na brincadeira de criança
Entre copas robustas
É fim de tarde
Há mistura de vozes e risos inocentes.
Dentro da casa, a mãe ralha com ela
Dá leves palmadas de cuidado
E chama pro banho
Que logo exala perfume de imenso frescor.
Ela ainda traz a toalha à cabeça
Olha para a mãe que sorri.
Não repara no homem que observa
Ali, muito extasiado, forjando o que está por vir.
Corre a menina, mas parece que desliza
No assoalho encerado.
“Por que não ficaste aqui?”
Se, por um instante, voltasse a rodopiar
Pela sala a dançar com essa saia rodada
Seria ele tempestade em redemoinho.
Sempre os mesmos olhos devoradores
De emboscada, aguarda
Saliva e uiva
Treme o corpo
Na espera quase convulsiva.
Ninguém nota a sua presença
São, pois, olhos de todos os dias.
Aguarda sem fazer alarde.
Há no tempo lembrança
Revive o troféu.
Penumbra num quarto
Criança que dorme
Chuva constante
Criança que chora.
Encosta
Roça
Disfarça
Finge canção de ninar.
Agora, ser bravio,
sem sombras de escrúpulos,
saliva, transpira e afia as garras.
É hora do ataque
Plano perfeito
Acima de qualquer suspeita.
Não é um estranho.
Não é um qualquer.
Não é um zé.
Não é chamado Mané.
Tem a posse.
Tem o dote.
Tem o porte.
Passaporte de poder.
Plano engendrado
Maliciosamente forjado
Jorra, voraz, a violência velada.
Se preciso for, a lei que seja alterada.
Por todas as meninas violadas, impedidas de seu direito de crescer (ser) mulher.

Giseli Barros
Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana








