Estudantes expõem a resistência de Santo Amaro do Botafogo
Exposição de estudantes de museologia revive o cotidiano da comunidade de Santo Amaro do Botafogo, denuncia crimes ambientais e celebra a resistência contra o avanço predatório na Serra de Ouro Preto
A resistência à mineração predatória foi um dos motes da exposição - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
O campus Morro do Cruzeiro, em Ouro Preto, tornou-se o epicentro de um dos debates mais urgentes de Minas Gerais na noite da última sexta (6). Entre os acordes da Banda Euterpe Cachoeirense, que conduziu um cortejo solene até o prédio de Direito, Turismo e Museologia (EDTM), onde foi inaugurada a exposição “Santo Amaro de Botafogo: Memória, Fé & Resistência”.
O evento, fruto do trabalho coletivo de estudantes do sétimo período de Museologia da UFOP, não apenas cumpriu um requisito acadêmico, mas escancarou as portas da universidade para a voz de um povo que luta para não desaparecer sob o pó de ferro. A exposição acontece até o dia 27 de fevereiro de 9h às 16h. Às Terças a exposição pode ser visitada entre 17h30 às 20h.
A construção de um "Saber Sensível"
A gênese da mostra partiu de uma constatação inquietante: a invisibilidade. Rafaela Arouxa, a estudante que propôs o tema, lembrou que, mesmo vivendo em Ouro Preto há três anos, desconhecia a existência do distrito até o início dos conflitos recentes.
“Eu nunca tinha ouvido falar de Botafogo. Fui saber da capela que estava correndo risco pela mineração... Entendi que a gente era um veículo para ampliar essa causa, ampliar essa luta em prol da comunidade e fortalecê-la”, explicou a estudante.

O processo de curadoria comunitária exigiu meses de imersão e escuta. Para a professora orientadora, Ranielle Menezes, o contato com o território foi transformador. “Foi um processo enriquecedor para refletirmos que lugar é esse que a gente está... contribuindo e realizando essas trocas”, afirmou.
Durante a abertura, ela dirigiu-se emocionada aos moradores: “A história de vocês atravessa a nossa. Ninguém quer que a sua história seja apagada. O medo de desaparecer foi algo que senti muito nos relatos”.
Para a turma, a museologia social foi a ferramenta para dar visibilidade a uma resistência ancestral. Panacea Betini, uma das organizadoras, destacou que a união em Botafogo transcende o aspecto religioso. “Não é apenas por uma coisa católica, mas é uma fé de si. Da certeza de como a história deles é importante e não pode ser apagada pela mineração ou esquecida”, pontuou a estudante.
Um mergulho no território: Memória, Fé e Resistência
A expografia foi desenhada para colocar o visitante dentro da comunidade. Os dois primeiros eixos, Memória e Fé, reconstroem o modo de vida local através de objetos como a foice, o carneiro hidráulico e imagens de Santo Amaro. Cenários que remetem ao cotidiano rural convivem com fotografias de família, resgatando o que o líder comunitário Benito Guimarães chama de "memória imaterial".

Contudo, é no terceiro eixo, a Resistência, que a exposição atinge seu clímax político. O ambiente torna-se denso, marcado pelo rap, pela pichação de protesto da artista Linda Vianna e pela camiseta que se tornou o símbolo do movimento.
As paredes desta sala ostentam ainda duas fotografias cedidas por este repórter, Lui Pereira, capturadas durante os momentos mais críticos do embate territorial em 2025: desde o licenciamento polêmico da Patrimônio Mineração até os desdobramentos da Operação Rejeito.
O pano de fundo: Propina, corrupção e crimes ambientais
A exposição serve como um lembrete vívido da "luta de uma comunidade simples contra um capitalismo selvagem", como definiu Benito Guimarães. A resistência ganhou força em 22 de março de 2025, no Dia Mundial da Água, quando a mineradora Patrimônio Mineração soterrou clandestinamente uma caverna para extrair minério de ferro. O crime, constatado pela Polícia Federal e órgãos ambientais, revelou que a cavidade havia sido omitida propositalmente no processo de licenciamento.

As investigações da Operação Rejeito expuseram as entranhas de um esquema de corrupção bilionário. A Polícia Federal rastreou o pagamento de R$500 mil em propina para facilitar o licenciamento da Mina Patrimônio, envolvendo o então presidente da FEAM, Rodrigo Franco e lobistas que articulavam até mesmo a alteração de decretos estaduais para isentar a empresa de multas.
Mais grave ainda foi a manobra para reduzir a zona de amortecimento da Estação Ecológica do Tripuí, habitat do raro Peripatus acacioi, para viabilizar a exploração mineral.
"A gente não bebe minério, a gente bebe água"
Benito Guimarães, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (AMAB), foi a voz mais contundente da noite. Ele relembrou que a preservação da histórica capela de Santo Amaro, datada do século XVII, é um legado de ancestrais que lutaram para que o território permanecesse íntegro. “A gente está lutando para que as futuras gerações conheçam o Botafogo do jeito que ele é hoje”, afirmou o morador.

Ao citar a ameaça aos aquíferos Cauê, Cercadinho e Gandarela, que abastecem Botafogo e contribuem para a bacia do Rio das Velhas, fonte de água da Grande BH, Benito reiterou o lema da comunidade: “A gente não bebe minério de ferro, a gente bebe água”.
O líder também destacou a importância de projetos como o que busca o tombamento da Serra de Ouro Preto como patrimônio hídrico e ambiental, exigindo o fim da exploração predatória por parte das sete mineradoras que cercam a região.
A exposição "Santo Amaro de Botafogo" na UFOP não é apenas uma mostra de objetos; é um documento histórico de uma comunidade que, armada de fé e memória, desafia gigantes do setor mineral para garantir seu direito ao futuro.
Confira mais imagens da exposição









Lui Pereira
É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.










