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Hoje é domingo, 8 de fevereiro de 2026

Cineteatro de Mariana vira “Cannes” por uma noite com estreia do Jornal Olhares e mostra de documentários nesta segunda-feira, dia 9. 

Quando a cidade vira cinema: estreia do Jornal Olhares

Cineteatro de Mariana vira “Cannes” por uma noite com estreia do Jornal Olhares e mostra de documentários nesta segunda-feira, dia 9

A mostra de documentários do Jornal Olhares transforma o Cineteatro de Mariana em espaço de encontro entre cinema, jornalismo e cidade. É uma noite para quem acredita no audiovisual como ferramenta de memória, crítica, afeto e claro, para quem sabe reconhecer quando algo importante está começando. Porque histórias importantes começam assim, em uma sala escura, uma tela acesa e alguém que pode dizer depois que esteve lá desde o começo.
O lançamento conta com a divulgação de um jornal impresso, idealizado por estudantes da disciplina de Fotojornalismo e uma mostra de documentários. - Arte: Divulgação

Na próxima segunda-feira (9), às 19h, o Cineteatro de Mariana troca o silêncio das cadeiras pela pulsação do cinema. Em clima de festival Cannes, com direito a estreia, debates urgentes e histórias que permanecem, acontece o lançamento do Jornal Olhares, acompanhado de uma mostra imperdível de documentários produzidos por estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a entrada é gratuita.

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A exibição marca o encerramento das disciplinas de Documentário e Fotojornalismo, ministradas pelo professor Leandro Lopes, e reúne curtas que atravessam memória, política, território, afeto e resistência. Para quem gosta de cinema potente, daqueles que podem rodar festivais e ganhar prêmios por aí, é a chance de dizer depois: “eu tava na estreia”.

Mais do que trabalhos acadêmicos, os filmes apresentados constroem um mosaico sensível e crítico sobre Minas Gerais, suas histórias silenciadas e seus personagens cotidianos, gente comum que carrega vivências coletivas.

Ditadura, memória e movimento estudantil

Dirigido por Douglas Júnio e Gustavo Reimberg, o documentário aborda um recorte republicano, do período de ditadura militar em Ouro Preto. - Arte: Artur Moreira
Dirigido por Douglas Júnio e Gustavo Reimberg, o documentário aborda um recorte republicano do período de ditadura militar em Ouro Preto. - Arte: Artur Moreira

Um dos destaques da noite é “Caso Armando”, documentário que investiga a atuação da ditadura militar em Ouro Preto a partir das repúblicas estudantis, um recorte pouco explorado quando se fala do período.

“A gente sempre ouve falar da repressão nas capitais, mas pouco se discute como ela atuou em cidades universitárias do interior”, explica Vinicius Ginú, integrante da equipe. O filme nasce da inquietação em entender como estudantes eram perseguidos nesses espaços e se ancora em documentos históricos, no relatório do Grupo de Trabalho da UFOP e em entrevistas com especialistas.

O documentário também traz o depoimento de Armando Lopes, que viveu a repressão na pele, além de uma pesquisa minuciosa em jornais da época e uma visita ao antigo DOPS, em Belo Horizonte.

“Em um contexto em que universidades públicas e estudantes seguem sendo atacados, o filme reforça o papel histórico dos movimentos estudantis na construção da democracia”, afirma Vinicius. A expectativa é que a obra contribua para preservar a memória de um período que ainda sofre tentativas de apagamento especialmente em um ano eleitoral.

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Da terra à cidade: a força de quem produz

Documentario no Cineteatro
Com direção de Pedro Vieira, o documentário traz visibilidade aos pequenos produtores da região. - Arte: Divulgação

Outro curta que integra a mostra é “Da roça à cidade: percursos dos pequenos produtores rurais”, que parte de uma cena simples e poderosa: uma senhora empurrando seu carrinho de verduras pelas ruas de Mariana.

A partir desse gesto cotidiano, o documentário revela o trabalho árduo dos pequenos produtores, os desafios enfrentados no campo e a importância do saber tradicional. Três personagens conduzem a narrativa, costurando o valor da terra, o deslocamento diário até a cidade e o vínculo essencial entre quem produz e quem consome. É um filme que mantém viva a força de quem sustenta as mesas da região dos Inconfidentes..

Fotografias, amor e o que permanece

Documentario no cineteatro
Entre fotografias e memórias, o documentário dirigido pelo trio Igor Montarroyos, Nicolle Soares e Vinicius Paes entra na mostra como um suspiro para o encontro de histórias transmitido pela lembrança. - Arte: Cecília Quadros

Em “Te amo com a memória, imperecível”, cinco pessoas contam histórias marcantes de suas vidas a partir de fotografias escolhidas por elas mesmas. Amor, luto, família e o valor do registro como preservação da memória atravessam o filme.

A ideia surgiu de uma pauta jornalística ligada aos 10 anos do rompimento da barragem de Fundão, quando pessoas atingidas pelo desastre-crime falariam sobre fotos levadas pela lama. Inspirado pelo cinema de Eduardo Coutinho, especialmente As Canções (2011), o projeto foi se transformando até chegar ao formato final.

“A maior importância do filme é mostrar que pessoas comuns também têm histórias incríveis”, explica a equipe. “Isso ajuda a gente a olhar para a própria vida com mais cuidado e empatia.” Gravado em Ouro Preto, Belo Horizonte e Lagoa Santa, o documentário é resultado de um processo intenso, cansativo, mas profundamente recompensador.

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Ocupações, moradia e o direito de existir

Documentário que vai ser exibido no Cineteatro
Com direção de Joyce Campolina, o documentário “Por que ficamos” aborda as histórias de quem vive nas ocupações em Mariana e enfrentam o “fantasma da desapropriação” desde 2008. - Arte: Isabella Moreira

Como um dos fechamentos da mostra, o documentário “Por que ficamos?” lança um olhar social e investigativo sobre as ocupações da Cidade Alta, em Mariana. Em uma cidade marcada pela especulação imobiliária, pela mineração e pelos impactos ainda visíveis do rompimento da barragem de Fundão, cerca de 11 mil pessoas vivem há anos sob o fantasma da desapropriação.

O filme rompe com a abordagem tradicional que reduz essas comunidades a “problemas” jurídicos ou administrativos. Aqui, moradores deixam de ser pauta e se tornam autores de suas próprias histórias: constroem casas, criam filhos, abrem ruas, inventam modos de resistir.

“A força do documentário está justamente em deixar quem mora nas ocupações contar suas histórias, suas vidas e seus desafios”, afirma Gisel Santoli, uma das integrantes do filme. “Na esperança de que, um dia, o fantasma da desapropriação vá embora.”

Com dados econômicos, depoimentos, silêncio e silêncio do Poder Público, o documentário tensiona o debate urbano e produz memória para a cidade e para o futuro.

Afeto e pertencimento em Lavras Novas

Documentário exibido no Cineteatro
Dirigido por João Henrique do Nascimento, o filme vem com um olhar sensível pelo distrito de Lavras Novas e sua relação com as pessoas que a vivem. - Arte: Vitória Guido e Mariana Hermidas

Propondo um olhar sensível sobre o cotidiano de um dos distritos de Ouro Preto, a mostra conta com o documentário “Lavras Novas: Espaço e Afetividade”. A produção percorre ruas, paisagens e costumes para investigar por que o local estabelece uma relação afetiva tão forte com moradores e visitantes.

A pesquisa surgiu do interesse do grupo em dar visibilidade a territórios afastados do Centro Histórico, partindo da pergunta sobre o que atrai pessoas que buscam em Lavras Novas uma atmosfera de acolhimento e pertencimento. O filme observa como objetos, hábitos e elementos do cenário funcionam como gatilhos de memória, convidando o espectador a refletir sobre a relação entre corpo, espaço e cotidiano.

Jornal Olhares: Mariana vista por quem vive a cidade

Além da mostra audiovisual, a noite marca o lançamento do Jornal Olhares, produzido coletivamente pelos estudantes do 2º período da disciplina de Fotojornalismo. O material reúne fotografias autorais, e todos os integrantes contribuem com uma imagem, cada um contando uma história da cidade de Mariana.

Mais do que um exercício técnico, o jornal se tornou uma experiência de descoberta e memória. “Eu meio que me descobri como pessoa ao poder fotografar pessoas pretas. Esse trabalho me deu a oportunidade de conhecer melhor essas histórias. Espero que esse jornal possa continuar. Foi uma experiência muito especial”, relata Victor Samuel, integrante do Olhares.

Para ele, o projeto se revelou singular desde o início. “Desde que pegamos na câmera pela primeira vez, a gente soube que seria algo muito especial”, afirma

Uma noite para ver, ouvir e lembrar

A mostra de documentários do Jornal Olhares transforma o Cineteatro de Mariana em espaço de encontro entre cinema, jornalismo e cidade. É uma noite para quem acredita no audiovisual como ferramenta de memória, crítica, afeto e claro, para quem sabe reconhecer quando algo importante está começando. Porque histórias importantes começam assim, em uma sala escura, uma tela acesa e alguém que pode dizer depois que esteve lá desde o começo.

Foto de Joyce Campolina
Joyce Campolina é graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas