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Feminicídio: a urgência de uma nova consciência
Crimes no Santa Clara e em Cachoeira do Brumado expõem falhas na rede de proteção e no discurso mediático sobre a violência de gênero
A cidade de Mariana enfrenta uma semana de luto e indignação após o feminicídio de Larissa Maria de Oliveira, de 25 anos, e do infanticídio de sua filha, Maria Fernanda Oliveira Gomes, de apenas 2 anos. Os corpos foram encontrados pela Polícia Militar na última terça (3), nos fundos de uma residência na Rua Caetano Pinto, no bairro Santa Clara, abraçados e com múltiplas lesões de facão.
O autor confesso, Felipe Gomes Cordeiro, de 24 anos, utilizou versões contraditórias antes de admitir o crime, incluindo a tentativa de justificar o crime por ciúmes e suspeitas de traição. Esse cenário covarde soma-se à tentativa de feminicídio ocorrida em 30 de janeiro no distrito de Cachoeira do Brumado, onde uma mulher foi resgatada de um barranco com traumatismo craniano grave após ser agredida por um homem, o que evidencia um ciclo de violência estrutural que precisa ser combatido com urgência.
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A cobertura da imprensa
A cobertura jornalística dos crimes ocorridos em Mariana tem sido alvo de duras críticas por reproduzir o chamado “lide policial” de forma automática, ignorando diretrizes de ética e gênero como as propostas pelo observatório de mídia, gênero e sexualidade, Ariadnes, do curso de Jornalismo da UFOP.
Ao noticiar o feminicídio de Larissa Maria de Oliveira e o infanticídio de sua filha, alguns veículos utilizaram manchetes que vinculavam o ato brutal a uma “suposta traição”, o que foi rechaçado por leitores e especialistas por “justificar” o crime e transferir a culpa para a vítima.
Segundo a cartilha do Grupo Ariadnes, o jornalismo deve evitar terminologias como “crime passional” ou frases que minimizem a responsabilidade do agressor, como dizer que ele “perdeu a cabeça”, agiu por “ciúme” ou estava com “falta de clareza mental”, termos que frequentemente constam em Boletins de Ocorrência (BO) mas que mascaram a natureza estrutural da violência de gênero.
A utilização do termo genérico “duplo homicídio” também foi contestada, uma vez que oculta o feminicídio que é o assassinato de mulheres especificamente pela sua condição de gênero.
O guia alerta ainda que o BO deve ser apenas um ponto de partida e, por muitas vezes conter erros ou a visão parcial do agressor, não deve ser reproduzido sem uma postura crítica que priorize a humanização da mulher, destacando quem ela era, seus sonhos e projetos, em vez de focar no modo como o crime ocorreu.
Além disso, a cartilha recomenda evitar fotos que sexualizem a vítima ou que a coloquem ao lado do feminicida, pois tais composições visuais podem mascarar relações de abuso e reforçar estereótipos.
Essa falha na cobertura local reflete um abismo mais profundo do machismo estrutural, onde a desumanização feminina na mídia (de Mariana aos planos globais de exploração revelados nos “Arquivos de Epstein”) acaba por tratar as mulheres como mercadorias descartáveis ou justificáveis de violência. Portanto, o papel do jornalismo deve ser o de romper com o sensacionalismo, tornando-se um espaço de construção do pensamento e de cobrança pela eficácia da rede de proteção.
Misoginia digital
Os crimes ocorridos na cidade nos últimos tempos são alimentados por uma cultura de ódio crescente em nossa sociedade, especialmente em ambientes digitais, onde grupos denominados “redpill” promovem a desumanização sistemática das mulheres.
O termo “redpill” (pílula vermelha), tem sua origem no filme Matrix (1999), representando a escolha de enxergar uma “verdade desconfortável” em oposição à “ignorância ilusória” da pílula azul. No entanto, essa metáfora foi apropriada por subculturas digitais para descrever homens que alegam ter despertado para um suposto sistema social que privilegiaria as mulheres e oprimiria os homens.
Na prática, essa “verdade” se manifesta como um discurso misógino organizado, caracterizado por ações coordenadas e sistemáticas que incentivam a hostilidade, a discriminação e o ódio contra o gênero feminino.
A misoginia típica desses grupos fundamenta-se na desumanização e na pregação da submissão ou dominação das mulheres. Comunidades como os “redpills”, “incels” (celibatários involuntários – homens frustrados por não conseguirem se relacionar sexualmente com mulheres) e “MGTOW” (homens seguindo seu próprio caminho) utilizam o ambiente digital para criar redes de radicalização onde a violência simbólica antecede a agressão real.
Esse comportamento não é apenas uma “opinião”, mas um sistema perverso que serve de etapa preparatória para a violência física, fornecendo a legitimação ideológica para perseguições e crimes letais, como o feminicídio.
É verdade que o feminicídio existe desde antes dos movimentos citados. Também é verdade que a misoginia e o machismo são muito anteriores à isso, mas não podemos descartar de forma alguma o poder desumanizante destes movimentos e a contribuição deles para uma maior radicalização que pode sim, levar a um aumento de crimes contra as mulheres, como o feminicídio, o estupro e a violência doméstica.
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Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio
Em resposta à alarmante estatística de que quatro mulheres são vítimas de feminicídio a cada 24 horas no país, os chefes dos Três Poderes da República firmaram, nesta quarta-feira (4), o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio.
O acordo estabelece uma atuação coordenada e permanente entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário para acelerar o cumprimento de medidas protetivas de urgência e fortalecer as redes de enfrentamento à violência em todo o território nacional.
A iniciativa reconhece que a violência de gênero é uma crise estrutural e busca, por meio do Comitê Interinstitucional de Gestão, transformar a cultura do próprio Estado para garantir a igualdade de tratamento e o atendimento humanizado às vítimas.
Além da responsabilização célere dos agressores, o pacto foca na prevenção ao promover a educação de homens e meninos e o enfrentamento de novas formas de agressão, como a violência em ambientes digitais, que muitas vezes serve como etapa preparatória para o crime letal.
Orientada pelo conceito “Todos juntos por todas”, a estratégia de comunicação nacional reforça que o combate à misoginia e ao machismo estrutural deve ser um compromisso ativo de toda a sociedade, visando interromper o ciclo que alimenta tragédias como as ocorridas em Mariana.
Vereador convoca homens para o combate à violência
Como resposta direta ao crime que vitimou Larissa Maria e sua filha no bairro Santa Clara, o vereador Pedro Souza (PV) organiza para este sábado (7) a “Marcha dos Homens” contra a violência e o feminicídio.
Com concentração às 9h no Centro de Convenções, o parlamentar convoca a cidade para transformar “indignação em ação”, defendendo que tragédias como esta “não podem ser tratadas como mais um caso isolado e não devem ser normalizadas”.
O ato, que seguirá rumo à Praça Minas Gerais, é descrito pelo vereador como um “ato de respeito, solidariedade e compromisso coletivo” para garantir que a memória das vítimas não seja esquecida e que “essa dor jamais se repita”.
Pedro enfatiza que “nenhuma vida interrompida pode se tornar apenas estatística”, buscando engajar o público masculino como aliado ativo no enfrentamento à misoginia e ao machismo estrutural.
Além da mobilização, o parlamentar protocolou na Câmara um projeto de lei para instituir o dia 3 de fevereiro como o Dia Municipal da Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher.
Onde buscar ajuda em Mariana?
Em caso de violência doméstica flagrante, a vítima ou testemunha deve buscar ajuda através da Polícia Militar 190, ou Polícia municipal 153. Para denunciar crimes contra a mulher, o recomendado é acionar a Central de Atendimento à Mulher, 180. Além disso, a cidade de Mariana conta com o Núcleo de Atendimento Especializado à Mulher (Neam), localizado na Delegacia de Polícia Civil de Mariana, Avenida Getúlio Vargas, S/N Centro.