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Hoje é sábado, 31 de janeiro de 2026

Envelhecimento e saúde mental: uma questão de escolha?

A velhice não é um fato isolado, é o prolongamento e a consequência de toda uma vida anterior” (Simone de Beauvoir)

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Ouça o áudio de "Envelhecimento e saúde mental: uma questão de escolha?", do colunista Júlio Vasconcelos

Vivemos em um país onde o número de idosos vem aumentando significativamente. Segundo o IBGE, em 2012 o Brasil tinha 20,6 milhões de pessoas com mais de 60 anos, em 2022 esse número cresceu para 32,1 milhões, portanto um aumento de 11,5 milhões! Esse aumento significativo nos leva a uma situação onde torna-se urgentemente necessário uma atenção muito especial, não só com relação aos aspectos logísticos e de infraestrutura para cuidar desses idosos, mas também aos aspectos de saúde física e mental.

Freud e a psicanálise nos ensinam que nós somos o que somos porque somos frutos de todo um processo de criação e amadurecimento, desde a concepção no interior do útero materno até a idade adulta. Portanto, de uma forma radical, podemos afirmar que o momento mais adequado para se preparar para uma velhice saudável começa não só quando nos tornamos adultos, mas desde a concepção, em primeiro lugar com os cuidados dedicados por nossos pais e depois com nossos próprios cuidados, seguindo pela vida afora. Evidentemente, esses cuidados não devem somente estar relacionados à saúde física, mas, com certeza, também à saúde mental. Provavelmente, grande parte dos problemas que os nossos idosos enfrentam hoje em dia, não esteja relacionado a problemas especificamente de ordem fisiológica, mas psicossomática e, infelizmente eles não têm consciência disso e se torna muito difícil desenvolver um tratamento psicanalítico com relação a isso. As crenças, os valores e os costumes já estão muto enraizados e é quase impossível o processo de mudança. Simone de Beauvoir (1908-1986), uma famosa filósofa francesa dizia que “A velhice não é um fato isolado, é o prolongamento e a consequência de toda uma vida anterior.”, pensamento que retrata bem o que estamos trazendo em pauta.

A famosa médica, escritora e especialista em cuidados paliativos Ana Cláudia Arantes, em seu livro “A morte é um bom dia para se viver” destaca que muitos idosos e pessoas em fase final da vida se arrependem de não terem aproveitado mais a vida, não no sentido literal de “viver mais tempo”, mas de ter vivido com mais significado e autenticidade. Ela observou que as reclamações mais comuns estavam relacionadas a não ter vivido a vida que realmente queriam, mas sim a vida que outros esperavam deles, não ter mostrado mais afeto e sentimentos às pessoas que amavam, ter trabalhado demais em detrimento da vida pessoal, deixando de passar tempo com filhos, parceiros e amigos e cultivado relações que davam sentido à vida e não ter se permitido ser mais feliz. Ana Cláudia enfatiza que o processo de morrer revela claramente o que realmente importou na vida de cada um, ou seja, coisas como status, trabalho incessante e expectativas externas ficam pequenas perto de relações, escolhas autênticas e amor vivido. Isso leva muitas pessoas, já próximas do fim, a lamentarem não terem aproveitado mais a vida de maneira plena e consciente.

Tendo em vista todas essas questões, embora não sejam fórmulas mágicas, ficam aqui algumas dicas que estão sob o controle de qualquer ser humano, para aqueles que, de forma preventiva, querem ter uma velhice mais saudável.

A primeira delas é cuidar da saúde mental e emocional, mantendo forte vínculos afetivos com a família e amigos, se abrindo com relação aos sentimentos, buscando sentido para a vida, investindo em novos projetos, em espiritualidade, em voluntariado e em hobbies.

Em segundo lugar, estimular a memória, a atenção e a linguagem através de leituras, jogos e de aprendizagem contínua.

A terceira é manter atividade física regular, quer seja através de caminhadas regulares, frequentando academias, praticando esportes ou qualquer outra atividade que exercite o corpo fisicamente.

A quarta dica é manter uma alimentação equilibrada, priorizando frutas, legumes, verduras, proteínas adequadas, reduzindo alimentos ultraprocessados, açúcar, sal e álcool e tomando muita água! Infelizmente a hidratação é frequentemente negligenciada pelos idosos.

A quinta é fazer check-ups regulares, mantendo um acompanhamento regular da saúde. Vale aqui o velho ditado “prevenir é melhor que remediar”.

Em sexto lugar, preservar a autonomia e a segurança, adaptando devidamente o local de moradia evitando escadas, com boa iluminação, barras de apoio, retirada de tapetes escorregadios, buscando sempre a independência nas atividades diárias, mesmo com ajuda parcial de outra pessoa.

É importante salientar que as quedas são a segunda maior causa de mortes acidentais não intencionais e a maioria dessas mortes ocorre em adultos com 60 anos ou mais, ou seja, entre as fatalidades por quedas, uma grande parte envolve idosos.

A sétima dica envolve manter uma vida social ativa, participando de grupos comunitários, atividades culturais e centros de convivência. A solidão crônica aumenta risco de depressão, demência e mortalidade.

E por último, aceitar o envelhecimento como uma fase natural da vida, reconhecendo os limites, trabalhando as perdas ao longo da vida, cultivando a gratidão e a reconciliação com a própria história.

Na grande maioria das vezes, velhice não é questão de idade, é uma questão de cabeça. Existem muitos jovens que já ficaram velhos precocemente e muitos idosos que, apesar da idade avançada e de todas as limitações, ainda permanecem jovens! Pode ser uma questão de escolha. Cada um faz a sua! E você, qual a sua escolha?

Quem tem ouvidos que ouça!

Foto de Júlio Vasconcelos
Júlio César Vasconcelos, Mestre em Ciências da Educação, Professor Universitário, Coach, Escritor e Sócio-Proprietário da Cesarius Gestão de Pessoas
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