- Mariana
Bento Rodrigues: atingidos rejeitam “bunker” de lama
Enquanto projeto divulgado gera revolta, especialistas da UFOP e moradores defendem proposta participativa para a preservação das ruínas da Capela de São Bento
Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, a proteção das ruínas da Capela de São Bento tornou-se o centro de um acalorado embate sobre memória e representatividade. A disputa coloca em lados opostos um projeto arquitetônico que utiliza os próprios rejeitos da mineração e uma proposta de reconstituição construída em diálogo direto com os antigos moradores, evidenciando o conflito sobre quem tem o direito de narrar a história do território.
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A polêmica do "bunker" e a reação local
A discussão ganhou visibilidade após o jornal Estado de Minas publicar detalhes de um projeto da arquiteta Jô Vasconcellos, que propõe a criação de um “bunker” de concreto para envolver o que restou da igreja do século XVIII. A proposta utiliza uma mistura de cimento com a lama de rejeitos que destruiu o distrito em 2015, o que a autora define como um “lugar de abrigo e aconchego”.
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Entretanto, a divulgação da ideia provocou reações imediatas da comunidade. Moradores e atingidos classificam a obra como uma “homenagem à lama” e uma tentativa de apagar a história original do distrito para dar lugar ao símbolo da tragédia. Entre as críticas manifestadas, destaca-se o questionamento sobre a falta de diálogo, com atingidos afirmando que o projeto não contempla os anseios de quem viveu no local e que a história de Bento Rodrigues não deve ser reduzida ao rejeito das empresas.
O olhar técnico e o projeto participativo
Para a arquiteta, urbanista e professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Flora Passos, o projeto de Vasconcellos carece de um processo participativo com os detentores do patrimônio. Flora, que integra o grupo de pesquisa CONTERRA (Conflitos em Territórios Atingidos) e atua em pesquisas sobre os impactos socioespaciais da mineração na região, esclarece que a proposta do “bunker” não é a que representa a vontade da comunidade.
Esse projeto não contempla os anseios da comunidade, isso porque a comunidade não foi ouvida. Infelizmente nesses 10 anos o que mais apareceu foi pessoas querendo decidir a nossa vida sem nos ouvir. Esse projeto tinha que ser construído dentro do complexo das empresas ASSASSINAS, principalmente por usarem o próprio rejeito na construção. Cabe lembrar que a comunidade de Bento surgiu anos antes das empresas, assim como nossa igreja de São Bento que era uma construção do século XVIII , porque nossa história tem que ser apagada pra prevalecer a lama?Mônica dos Santos, Integrante da CABF
Ainda segundo Flora Passos, o projeto que realmente reflete as demandas locais é o do arquiteto Rodrigo Meniconi, que foi formalmente entregue à Prefeitura de Mariana e aos atingidos em dezembro de 2025. Esta proposta, defendida pela Comissão de Atingidos (CABF) e pela assessoria técnica da Cáritas MG, prioriza a recuperação da identidade do lugar em vez de monumentalizar o desastre.
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A proposta de Rodrigo Meniconi: ambiência e memória
Diferente da estrutura de concreto suspensa, o projeto de Rodrigo Meniconi foca na reconstituição da capela e na reintegração da paisagem local. O plano arquitetônico prevê o uso de Madeira Lamelada Colada (MLC) em seus pilares, vigas e tesouras, respeitando a volumetria e o paisagismo original do templo. A estrutura contaria com brises e panos de vidro, permitindo que os visitantes visualizem tanto as ruínas preservadas quanto elementos internos reconstituídos, como o coro e o altar-mor.
O projeto também contempla um detalhado plano de paisagismo que visa reabilitar o território com a reinserção de espécies vegetais nativas que compunham o cenário antes da tragédia, com a reinserção de árvores de grande porte. O objetivo central é recuperar o sentido de pertencimento da comunidade, tratando o patrimônio como uma experiência socialmente construída e não apenas como um testemunho estático da destruição.
Recursos e o futuro do Museu de Território
Apesar das propostas, a execução das obras depende da liberação de R$ 27 milhões que a Samarco depositou na conta da Prefeitura de Mariana. O uso desse recurso está atrelado a acordos com a Unesco, que atua como parceira técnica para garantir que o modelo de “Museu de Território” siga padrões éticos e responsáveis.
A Unesco defende que a preservação deve incorporar as perdas da barragem sem reduzir o território apenas à tragédia, afirmando seu lastro histórico de mais de três séculos. Enquanto o impasse institucional persiste, os moradores de Bento Rodrigues seguem firmes na rejeição ao que chamam de “oportunismo” estético, exigindo que qualquer intervenção respeite as tradições e a soberania de quem mantém viva a memória do local.