Tremembé é sucesso de público, mas de potencial desperdiçado
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Ouça o áudio de "Tremembé é sucesso de público, mas de potencial desperdiçado", do colunista Kael Ladislau:
O Brasil já não precisa provar que tem muita história para contar sobre si no cinema ou na TV. Tremembé é um pouco disso, mas mostra também que precisamos pensar em pisar o pé no freio da empolgação e dizer: “nem tudo precisa ser bom”.
Nem tudo precisa ser bom e Tremembé, série que a Prime Video disponibilizou em cinco episódios, é algo que podemos chamar de mediano. E tá tudo bem.
A trama conta a rotina do presídio em São Paulo conhecido por receber condenados famosos, entre eles, a midiática Suzane von Richthofen, interpretada pela sempre mediana Marina Ruy Barbosa.
A atriz vive o que se poderia chamar de protagonista da série – por mais que nem sempre a trama gire em torno dela. Ela consegue pouco mais do que explorar a beleza da personagem. Manipuladora, a Suzane de Marina tem muito de seus quereres vindo do acaso.
Não é demérito da atriz, mas sim do roteiro. Barbosa faz sua Suzane com olhares vagos e aposta em trejeitos que possam lembrar a mandante do assassinato dos pais. Há uma cena apenas em que ela utiliza recursos corporais para se insinuar e manipular outra personagem.
As outras atuações e histórias contadas em Tremembé apostam em mostrar como aquelas pessoas se relacionam e lidam com as consequências após suas condenações. Os crimes, em sua maioria assassinatos, são reconstituídos não para mostrar ao público o que aconteceu, mas para reforçar o poder do evento na constituição dos personagens naquele momento.
O caráter impetuoso de Alexandre Nardoni, por exemplo, é explicado com a cena do crime com a sua filha Isabelle. A série lida com um limiar muito tênue entre humanizar essas pessoas e romantizar suas atitudes e construir essas personalidades complexas para o público.
À parte de Marina, ainda temos outras atuações que oscilam muito entre si. Temos boas atuações como a de Anselmo Vasconcelos que vive o crápula Roger Abdelmassih, que não lembra em nada seus trabalhos cômicos, como em Zorra Total.
Carol Garcia como Elize Matsunaga surpreende por mostrar uma personagem melindrosa e cínica, ainda que o roteiro evite mostrar mais dela e de seu potencial dentro do presídio.
Felipe Simas, como um dos irmãos Cravinhos, é competente, mas nele, o roteiro exagera por mostrar seu enfraquecimento como se fosse apenas alguém manipulado por Suzane.
Apesar da baita caracterização como Alexandre Nardoni, Lucas Oradovschi é caricato, apelando a caretas para mostrar seus sentimentos.
É impossível não passar pelo elenco em uma série como Tremembé justamente por ser uma obra que fala dessas relações e aposta nessas figuras como geradoras de histórias inesperadas entre si.
Por fim, o desequilíbrio entre essas atuações e o roteiro que tenta não humanizar os personagens gera uma série que mostra o potencial brasileiro para render histórias para um público que consome “true crimes” adoidado.
E com o repertório tão extenso, nem sempre acertamos, por mais que os 5 episódios de Tremembé não dão a impressão de tempo perdido, mas de um potencial pouco explorado.
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