Quando lembrar também dói: por que falar de inclusão ainda é urgente
Um olhar pessoal sobre inclusão, vínculos e transformação social
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Ouça o áudio de "Quando lembrar também dói: por que falar de inclusão ainda é urgente", da colunista Cíntia Soares:
Se 2026 é o novo 2016, eu desejo, do fundo do coração, que este seja o ano em que a educação e a inclusão deixem de ser promessa e se tornem prática.
Lembrar do passado, quase sempre, vem acompanhado de saudade. Um sentimento morno, confortável, que lembra casa, cuidado, colo de mãe. Mas essa não é uma experiência universal. Para muitas pessoas com deficiência, como eu, a memória também carrega dor. Carrega silêncios, olhares atravessados e a sensação constante de não pertencimento.
Quando volto aos anos 2000, mais especificamente a 2006, o que encontro não é apenas nostalgia. Encontro um tempo em que quase nada nos protegia. Não havia leis suficientes, não havia debate público consistente e muito menos escuta. Crianças com deficiência e suas famílias precisavam ser fortes o tempo todo, mesmo quando tudo o que queriam era apenas existir sem precisar justificar o próprio corpo.
Cresci entendendo cedo demais que o mundo não foi pensado para nós. E, ainda assim, seguimos. Rompendo silêncios, enfrentando desconfortos e aprendendo a falar, mesmo quando ninguém parecia disposto a ouvir.
Com o tempo, também aprendi que ninguém caminha sozinho. A inclusão acontece, de fato, quando existem elos. Pessoas que seguram a mão, que escutam sem pressa e que escolhem permanecer. Foi dessa percepção que nasceu minha série Elos: da necessidade de falar sobre vínculos, apoio e responsabilidade coletiva. Porque inclusão não é um gesto individual, é uma construção conjunta.
E isso me faz perguntar: quem são aqueles que realmente estão dispostos a caminhar conosco? Quem entende que fazer parte dessa transformação social exige presença, desconforto e compromisso? E quem prefere se afastar, tratando nossos desafios como se fossem invisíveis?
Escrevo porque acredito que palavras criam pontes. Que em 2026, os desejos das crianças e adolescentes com deficiência não precisem mais ser resistência diária. Que possam ser sonhos, projetos e realidade.
Na próxima coluna, quero seguir falando sobre esses elos: os que fortalecem, os que faltam e os que ainda precisam ser construídos para que a inclusão deixe de ser exceção e passe a ser regra.
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