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Hoje é segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Viver em Mariana é quase 10% mais caro do que em João Monlevade

Pesquisa da UFMG compara as duas cidades e mostra os impactos sociais da mineração; veja os números

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De acordo com a pesquisa, a mineração é um dos principais fatores de inflação para os municípios - Foto: Lui Pereira/Arquivo Agência Primaz

Uma pesquisa da UFMG comprovou que morar em Mariana custa bem mais caro do que em João Monlevade. De acordo com o estudo, a inflação local de Mariana é de 9,4% superior à de Monlevade. 
A pesquisa inédita também revela que os impactos sociais da mineração são tão ou mais graves que os ambientais.
A pesquisa foi encomendada pela AMIG Brasil (Associação Brasileira dos Municípios Mineradores) e realizada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Administrativas – IPEAD, da UFMG. O estudo analisou e comparou Mariana com João Monlevade porque são cidades de mesmo porte e com perfil similar.

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Em Mariana, o preço da cesta básica é mais alto, custando R$ 753,40, frente aos R$ 737,19 registrados em João Monlevade. Na prática, o estudo comprova que o cidadão marianense que vive com um salário mínimo mensal perde poder de compra de forma significativa.

Os dados também revelam um processo de marginalização social nas cidades mineradoras, causado principalmente pela alta nos preços da moradia. Na cidade de Mariana os aluguéis são até 27,5% mais caros do que em João Monlevade.

Foto: arquivo Kinderlly Brandão/Expresso Monlevade

“A chegada de profissionais com salários mais altos, geralmente contratados pelas mineradoras, pressiona o mercado de aluguel e expulsa moradores antigos e de baixa renda para áreas periféricas”, explica o pesquisador Fabrício Missio, presidente do IPEAD. 

Outros grupos de consumo com aumento expressivo incluem despesas pessoais, saúde, alimentação e vestuário. 

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Mariana vive uma expansão desordenada, que é um reflexo direto da pressão econômica, especialmente da atividade mineradora. Crédito: Lui Pereira/Arquivo Agência Primaz

Mineração em João Monlevade

A chegada da mineradora Bemisa em João Monlevade promete injetar dinheiro na economia local via impostos e empregos.
Neste contexto, Monlevade está avançando como cidade mineradora. A Bemisa está implantando o projeto Pedra Branca para extrair minério de ferro no município.
Monlevade possui recursos de cerca de 130 milhões de toneladas de minério de ferro. Na primeira fase do projeto da Bemisa, será produzido 1,5 milhões de toneladas por ano. Para efeito de comparação, a Vale extrai uma média anual de 27 milhões de toneladas de minério de ferro em Itabira.
Durante a operação do empreendimento, ocorre um incremento de tráfego na estrada de Pacas, que liga a área do projeto à BR-381, e aumenta a geração de poeira e ruído. 
As atividades da mina também vão aumentar a renda de João Monlevade em função da geração de impostos (ICMS e CFEM). Também está prevista a utilização da mão de obra local e regional.
No entanto, os recursos da mineração não devem provocar uma mudança radical na economia de João Monlevade. De acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM), em todo o ano de 2025, Monlevade recebeu apenas R$ 255 mil provenientes da CFEM.

Vale destacar que a extração do minério em Monlevade será realizada através de uma planta de beneficiamento a seco. Ou seja, não será implantada uma barragem de rejeitos como a que ocasionou a tragédia e crime socioambiental em Mariana em 2015.

Por que cidades mineradoras têm custo de vida mais alto?

Segundo a AMIG, a presença da mineração pode até fazer o PIB local disparar, mas a população da cidade mineradora pode pagar caro por esse crescimento. Para a AMIG, sem planejamento pré e pós-mineração, cidades ficam reféns da desigualdade e do encarecimento da vida.
Como analisado no estudo, cidades mineradoras ficam mais caras devido à inflação estrutural gerada pela concentração de renda, alta demanda por moradia (aluguéis sobem), aumento da pressão sobre serviços públicos (saúde, educação) e despesas pessoais. Isso prejudica a população local de baixa renda, que têm dificuldade de arcar com o custo de vida.

O estudo também mostra que os municípios mineradores gastam mais per capita com saúde e apresentam maior número de internações por mil habitantes, o que indica uma sobrecarga dos serviços públicos essenciais. 

Segundo a pesquisa, o alto custo de vida não afeta diretamente os funcionários das mineradoras, que contam com bons salários, participação nos lucros, planos de saúde e, em algumas regiões, até acesso a escolas particulares para seus filhos. Já os trabalhadores terceirizados, os imigrantes em condições precárias e os moradores locais sem vínculo com a mineração são os que mais sofrem com esse impacto social. 

O presidente da AMIG Brasil e prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage, enfatiza que “enquanto os empregados das mineradoras vivem em uma bolha de consumo privilegiada, a maioria da população lida com salários baixos, serviços públicos saturados e custo de vida crescente.”
“Considerar os impactos sociais extremamente negativos para o licenciamento ambiental, exigir mitigação dos mesmos às mineradoras e diversificar a economia é urgente para romper o ciclo de dependência e exclusão”, defende a AMIG.

Kinderlly Brandão

Esta reportagem foi publicada originalmente no site Expresso Monlevade, da rede Mais Pelo Jornalismo.

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