- Região dos Inconfidentes
Cinema hip-hop: “Arte da Guerra” estreia com grande público
Com transporte gratuito, equipe de apoio e recursos de acessibilidade, o evento garantiu participação plena de pessoas com deficiência nas cidades de Ouro Preto e Mariana
A noite do último domingo (4), marcou um momento histórico para a cultura da Região dos Inconfidentes com a estreia oficial do curta-metragem “Arte da Guerra” no Cineteatro Municipal de Mariana. O evento, gratuito e aberto ao público, atraiu um grande público, com artistas independentes, produtores culturais, amigos, familiares e alunos da região, que lotaram o espaço para prestigiar uma obra cinematográfica feita pela “nossa gente”. Selecionado pelo edital da Lei Paulo Gustavo, o filme é o resultado de um esforço coletivo que durou cerca de 12 meses e envolveu mais de 40 profissionais em todas as suas etapas.
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A "Escrevivência" e a realidade da periferia
O curta-metragem, idealizado por Mirian dos Santos (Bad Miroca) e Paulo Rogério (Aquiles, o poeta), utiliza como base o conceito de “escrevivência”, cunhado pela escritora Conceição Evaristo. Mais do que uma técnica narrativa, a escrevivência permitiu que as trajetórias reais dos cinco protagonistas (Bad Miroca, Aquiles, Bomblack, Kete e Killa) fossem fundidas à ficção. Para construir o roteiro, a diretora realizou entrevistas com os artistas e construiu as cenas baseadas em suas rotinas e individualidades.
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A trama explora temas densos como a marginalização, a força ancestral, o ativismo cultural e a maternidade solo, expressos através da poesia, do hip-hop, da capoeira e da espiritualidade. Como descreve a diretora, a obra retrata a “malandragem” necessária nas ruas para vencer o sistema, transformando o cotidiano da periferia em um polo de produção cultural que permite aos artistas continuarem vivos e resistindo.
Além disso, o filme consegue reconstruir poeticamente os espaços de vivências urbanos onde os personagens transitam e constroem arte. As praças, as periferias, o ônibus e a pista de skate se apresentam como espaços de sociabilidade, de conflitos, de criação e fruição artística.
Cinema independente como campo de batalha
A produção do filme foi descrita pelos seus realizadores como um verdadeiro exercício de resistência e “guerrilha”. Em mensagem lida ao final da exibição pela assistente de direção Klevilaini, Mirian dos Santos destacou que fazer cinema independente no Brasil é “um embate constante contra a falta de recursos e um sistema que tenta aniquilar vidas periféricas”. “Arte da Guerra” nasceu de uma música homônima de Aquiles e reflete a escassez enfrentada por artistas da palavra na região.
O projeto contou com uma rede sólida de apoio, incluindo parcerias com o projeto social Alferes, a Casa de Cultura Negra de Ouro Preto, e coletivos como Conexão Zulu e Vila Pobre. Ainda durante o discurso pós-exibição, enfatizou-se que o suor e as feridas desse “campo de batalha” só foram suportáveis graças ao trabalho coletivo e ao diálogo entre os mais de 40 colaboradores que vestiram a camisa do projeto.
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A arte como profissão e ferramenta educativa
Um dos momentos mais marcantes da noite foi o discurso de Paulo Rogério (Aquiles), que defendeu a profissionalização do artista de rua. Ele instou os jovens artistas periféricos a estudarem editais culturais e leis de fomento, como a Lei Paulo Gustavo, para que possam viver de sua arte com dignidade. “Muitas vezes a gente é tirado desse lugar de que isso não é uma profissão… mas isso é trabalho como qualquer outro trabalho”, afirmou.
Aquiles também trouxe uma redefinição poderosa do termo MC (Mestre de Cerimônia), ampliando-o para além das batalhas de rima: para ele, a primeira MC é a mãe que conduz a cerimônia do lar para que não falte o que comer, e o segundo é o professor que incentiva o aluno a ler. Com essa visão de expansão de conhecimento, os realizadores anunciaram que o próximo passo é levar o filme para escolas e espaços educacionais, buscando inspirar jovens e adolescentes a tornarem seus sonhos possíveis através da cultura.
Compromisso com a acessibilidade
A estreia de “Arte da Guerra” deu um exemplo de cidadania ao garantir que o cinema fosse acessível a todos, independentemente de limitações físicas ou sensoriais. A produção organizou um esquema de transporte gratuito para pessoas com deficiência (PCDs) e acompanhantes, com pontos de embarque em Ouro Preto e Mariana.
No local, uma equipe de apoio dedicada auxiliou pessoas com mobilidade reduzida a acessarem o teatro e se acomodarem. Além disso, a exibição contou com recursos de tecnologia assistiva fundamentais: legenda descritiva, intérprete de Libras e audiodescrição. Esse cuidado prévio, organizado por meio de formulários de inscrição, assegurou que o “sopro poético de revolta” do filme chegasse a cada espectador presente, reforçando que a arte da periferia é, por natureza, inclusiva.
Ao final da exibição, a equipe subiu ao palco para uma foto coletiva, celebrando o que chamaram de “fazer história para nós mesmos” em uma região onde artistas gigantes semeiam arte diariamente nas ruas.