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Hoje é sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Workshop ilumina os desafios da seletividade alimentar no TEA

Instituto Preciosidade e NutriTEA levam ciência e acolhimento à comunidade

Quatro mulheres sorriem e posam para a câmera em frente uma TV onde a gente vê a seguinte frase: "Desvendando a seletividade alimentar"
Instituto Preciosa Idade e NutriTEA/UFOP se unem em prol de uma alimentação mais tranquila e inclusiva no TEA. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Na noite de 27 de novembro, enquanto as ruas se iluminavam para a abertura do Natal Luz, dentro da Escola Doce Infância outro tipo de brilho se acendia: o de mães, educadoras, pesquisadoras e profissionais reunidas para compreender, com delicadeza e rigor científico, um dos maiores desafios cotidianos de muitas famílias neurodivergentes: a seletividade alimentar.

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O workshop, fruto de uma parceria entre o Instituto Preciosidade e o projeto NutriTEA/UFOP, transformou o espaço escolar em um lugar onde ciência, prática e sensibilidade caminhavam juntas. O encontro começou com um lanchinho: gesto simples, simbólico, que já afirmava uma das mensagens centrais da noite: alimentação é vínculo, ambiente e experiência compartilhada. E é ali, que cada detalhe importa.

Ciência aplicada ao cotidiano

Durante o encontro, repleto de dinâmicas e trocas entre palestrantes e participantes, foram apresentadas estratégias práticas e acolhedoras, sobre: ampliação da aceitação alimentar, criação de ambientes seguros e previsíveis, manejo dos estímulos sensoriais, construção de rotinas realistas, tópicos vividos e levantados pelas mães e profissionais que compareceram no evento. Mas principalmente, o papel da família na relação alimentar e sobre quando buscar ajuda especializada.

O grande mérito do workshop foi unir linguagem acessível e rigor técnico: mães e profissionais saíram com orientações viáveis para aplicar em casa e na escola, desde a forma de apresentar novos alimentos até maneiras de respeitar o tempo e os limites de cada criança. E quando perguntadas se a viagem compensou, a resposta foi unânime: “Valeu muito a pena”. A nutricionista Pâmela Paula Gonçalves, ainda completa, “inclusive eu acho que foi uma das formas mais dinâmicas de aprender”.

Em uma sala de aula com cadeiras azuis, vemos 8 mulheres sentadas, a câmera mostra apenas duas fileiras dessa sala, a mulher que está na primeira fila está virada pra trás na cadeira e conversa com as demais. Uma delas sorri
Durante o encontro, a dinâmica “Mito ou Verdade” tomou conta da sala e transformou o evento em um verdadeiro ambiente de trocas, identificações e acolhimento. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

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Um presente de Natal

Para Nádila Valta, psicóloga e diretora do Instituto Preciosidade, o evento é mais que uma ação técnica, é um ato de afeto coletivo.  “Eu fiquei pensando o que o instituto podia fazer em relação ao bem comum. Acho que falar disso é uma forma de acessar as pessoas e presenteá-las num momento tão importante”, afirmou, apelidando o evento carinhosamente de “presente natalino”.

Uma mulher em frente a uma TV com um tablet na mão sorri com muito entusiasmo, atrás dela tem ainda uma mesa e ao lado um vaso com flores amarelas. Ela parece discursar para outras mulheres em uma sala
“Eu tinha uma certeza de querer trazer para Mariana o melhor, né? E hoje eu tenho essa essa gratidão dentro de mim de saber que Mariana tem esse nosso trabalho de ponta sendo desenvolvido”, afirmou Nádila. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

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O Instituto Preciosidade ou “Preciosa Idade”, nasceu do sonho de trazer para Mariana um trabalho inovador, baseado em metodologias de intervenção precoce reconhecidas internacionalmente. Com equipe multidisciplinar, supervisões constantes, grupo de estudos e filosofia de atendimento integral, a clínica se consolidou como uma referência regional no cuidado de crianças neurodiversas.

A trajetória de Nádila também atravessa geografias e principalmente coragem. Formada pela Universidade da Austrália e primeira brasileira certificada internacionalmente em intervenção precoce no autismo, ela decidiu retornar à sua cidade natal para criar aqui um polo de ciência e cuidado. 

Hoje, com psicoterapia infantojuvenil, fisioterapia pediátrica, fonoaudiologia e outros serviços, o instituto prepara-se para um novo salto: uma sede em Passagem de Mariana, pensada desde a arquitetura, para a neurodiversidade.“Eu sempre tive um sonho de trazer para Mariana um projeto inovador que levasse informação de qualidade baseada em evidências. Hoje esse sonho virou realidade”, contou a diretora.

NutriTEA/UFOP: ciência, pesquisa e experiência vivida

“E aí, a gente tá aqui hoje para poder levar um pouquinho de informação pras famílias e pros cuidadores. Mas também, para ter essa troca de conhecimento, de entender quais são as demandas, as necessidades para que esse projeto possa crescer mais”, afirmou a pesquisadora Mayla - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Do outro lado da parceria estava o NutriTEA/UFOP. A professora e pesquisadora Mayla Cardoso Fernandes Toffolo, referência em nutrição materno-infantil, levou ao workshop seus mais de dez anos de pesquisa, somados à vivência como mãe. A própria experiência familiar com a seletividade alimentar impulsionou a criação do projeto, vinculado ao NEAN/UFOP, que se dedica a aproximar ciência e comunidade. “Hoje estamos aqui para orientar as famílias, mas também para ouvir. A troca é essencial”, afirmou Mayla.

Ao lado dela estavam as estudantes e pesquisadoras Eugênia Cardoso, Maria Eduarda Hubner e Brenda Rogai, que traduziram com clareza a missão do NutriTEA: fazer o conhecimento chegar a quem realmente precisa. Jovens, mas profundamente comprometidas, elas carregam a responsabilidade de transformar pesquisa acadêmica em orientação acessível, sensível e prática para as famílias.

Estudantes e pesquisadoras no NutriTEA unidas em prol da construção de um ambiente acolhedor em que famílias se sintam representadas e compreendidas. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Segundo as pesquisadoras, o NutriTEA nasceu justamente da percepção de que conhecimento técnico só ganha sentido quando chega de forma clara à comunidade. “Vimos a necessidade de compartilhar o que estávamos aprendendo”, explicou Eugênia. Brenda completou destacando o impacto humano do trabalho: “É muito importante saber lidar com seres humanos como seres humanos, né. Então, o projeto faz uma diferença enorme para nós nesse aspecto e ajuda a fortalecer isso.”

Doce Infância: a escola que abraça

Diretora Vanessa Aparecida da Silva mostra que o evento foi só alegria e troca gargalhadas ao lado de professoras e monitoras da Escola Reino da Alegria. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

A escolha da Escola Doce Infância como sede do workshop não foi ao acaso. Para Nádila Valta, a instituição é uma das parceiras mais comprometidas com a disseminação de informação de qualidade. “A Doce Infância sempre nos acolheu. É uma escola inclusiva, que respeita a neurodiferença”, afirmou a psicóloga.

Esse reconhecimento não nasce apenas do trabalho da equipe, mas também da história de quem conduz a escola. A diretora, Vanessa Aparecida da Silva, costuma dizer que foi “a primeira incluída”: descobriu o TDAH apenas na vida adulta e, com isso, entendeu por que, na juventude, lhe faltaram justamente o que hoje mais oferece,  acolhimento e empatia.

“Eu disse para mim mesma: vou ser professora para acolher essas crianças, para que nenhuma passe pelo que eu passei”, relembra.

Foi desse pacto íntimo que nasceu a Doce Infância, um espaço onde a neurodiversidade é bem-vinda, mas sempre sustentada por responsabilidade, estudo e parcerias clínicas essenciais.

E essa busca por conhecimento não se limita à direção. Educadoras de Mariana e Ouro Preto encheram a sala naquela noite, muitas delas da Escola Reino da Alegria, onde o cuidado com crianças autistas e a seletividade alimentar fazem parte da rotina. Vieram por desejo de aprender, de transformar práticas, de enxergar cada avanço como vitória.

“Cada progresso dele é uma felicidade para mim. Vim para aprender a cuidar melhor desse aluno”, disse Fernanda Letícia da Silva, monitora de uma criança no espectro autista.

Mães, dores e a esperança do encontro

O momento de encontro é finalizado entre abraços e um lanche para celebrar o projeto.- Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz

Entre os depoimentos mais emocionantes da noite, esteve o de Regiane de Sousa, mãe do pequeno Lucas, que tem Síndrome de Down e está em investigação de TEA. “É angustiante ver a seletividade do meu filho e me sentir de mãos atadas. Eu espero sair daqui com técnicas para mudar essa situação.”A fala de Regiane era o retrato vivo do motivo pelo qual aquele workshop existia, o de transformar a angústia e a culpa de tantos pais em possibilidade e resoluções.

Mais do que uma atividade pontual, o workshop inaugurou um ciclo: o compromisso de criar, na região dos Inconfidentes, um espaço contínuo de formação, apoio e pesquisa sobre seletividade alimentar no TEA.

No fim, quando o encontro terminou, as luzes de Natal continuavam acesas lá fora. Mas dentro da Doce Infância, era a luz de todo aquele conhecimento compartilhado que refletia. 

Na soma de vozes das mães presentes, educadoras comprometidas, pesquisadoras dedicadas e uma diretora que sonha grande, Mariana recebeu um presente precioso. Um presente que sai do saco do Papai Noel e promete permanecer na vida diária de muitas famílias.

Foto de Joyce Campolina
Joyce Campolina é graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas