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Hoje é sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Rock universitário é palco de episódios racistas em Mariana

Duas estudantes relatam terem sido acusadas injustamente de furto de bolsa por um estudante da UFOP durante o evento universitário

Arte ilustratica mostra símbolo antirracista, em decorrência do acontecimento durante evento universitário.
Rock do Submundo 220, em Mariana, teve relatos de abordagens racistas contra estudantes - Arte: Lui Pereira/Agência Primaz

Durante um rock (festa universitária) ocorrida no último dia 30, em Mariana, foram relatados dois casos de racismo envolvendo o mesmo agressor. O jovem abordou duas estudantes negras em momentos distintos sob a acusação de terem furtado a bolsa de uma acompanhante. O caso ocorreu durante o “Rock do Submundo 220”, evento universitário organizado pelas repúblicas Insônia e D’oce Lar.

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Duas vítimas em uma mesma festa

No dia seguinte ao evento, a República Choppana, onde mora uma das vítimas, emitiu nota de repúdio condenando a atitude ocorrida na festa. De acordo com a publicação da República, uma de suas moradoras “foi abordada de forma constrangedora e insistente por um rapaz estudante da UFOP que a acusou de estar com a bolsa de outra pessoa (que no caso era amiga dele)”.

Ainda de acordo com a nota, a abordagem aconteceu por duas vezes, em momentos diferentes, alegando que as bolsas “eram iguais”. Após insistir que a estudante teria furtado a bolsa de sua acompanhante, ela preferiu abrir sua bolsa e mostrar documentos e objetos pessoais para “provar” que a bolsa de fato era sua. Para a república, não houve outra motivação que não o preconceito racial.

Foi só após ler o relato da República Choppana que a segunda vítima se deu conta de  que a violência sofrida no dia anterior tinha características raciais. Emilly Messias Gomes, moradora da República Terra de Godah, afirma que o mesmo jovem a abordou de forma invasiva, também acusando-a de portar a bolsa de outra pessoa. “Ele chegou já pré-acusando, sabe? Perguntando se a bolsa era minha, tinha outras formas de abordagem, sem ser tão invasiva.”, relatou a estudante.

Ainda segundo Emilly, no momento não percebeu o caráter racista da abordagem, foi apenas no dia seguinte, ao ler a nota de repúdio da República Choppana que ela percebeu o paralelo entre os dois casos e reconheceu o racismo do agressor. “Ele literalmente falou a mesma coisa com ela comigo, entendeu? E foi um paralelo e entendi que ele tava sendo um racista”, afirmou.

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Posicionamento das repúblicas

A produtora O Muro Produções, das repúblicas Insônia e D’oce Lar, responsáveis pela organização do Rock do Submundo 220 também se solidarizaram com as vítimas de racismo. “Estamos à disposição para apoiar em qualquer desdobramento posterior e nos prontificamos a ajudar no caso. Salientamos que não compactuamos com nenhum tipo de preconceito e sentimos muito pelo ocorrido, nosso objetivo sempre foi construir um rolê respeitoso e que evite qualquer forma de constrangimento”. Além disso, as repúblicas afirmaram que o estudante acusado não será aceito em novos eventos da produtora.

Para a República Choppana, “não há nenhuma outra justificativa para este acontecimento que não o preconceito racial. Sabemos que esse tipo de atitude não é um caso isolado. Nos solidarizamos totalmente com a Cunhada (moradora da República Choppana) e reafirmamos que ela não estava e não está sozinha”.

Emilly reflete que mesmo em uma festa universitária, um ambiente plural, com muita diversidade, o preconceito e a violência ainda persiste: “Infelizmente a gente tem que lembrar que as pessoas são escrotas, são filhas da puta, independente do ambiente que elas estão”, lamenta.

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Outros casos de racismo

Na entrada do ICHS, sobre a placa do campus, foi pregada a expressão "Fogo nos racistas", em forma de protesto. – Foto: Gustavo Batista/Agência Primaz
Um dos cartazes da manifestação realizada pelos estudantes em março deste ano - Foto:(arquivo) Gustavo Batista/Agência Primaz

Casos anteriores de racismo em repúblicas da UFOP foram denunciados ao longo do ano e motivaram protestos estudantis e debates sobre políticas de combate à discriminação na universidade. Em março, a estudante de jornalismo Ana Luíza Rodrigues denunciou comentários racistas feitos por uma ex-moradora da República Mandacaru. Segundo Ana Luíza, além dos comentários, ela foi excluída de conversas e espaços de convivência. Ao buscar amparo, não recebeu apoio da representante da casa, e a situação foi minimizada, levando-a a se retirar da moradia.

No mesmo mês, no ICSA (Instituto de Ciências Sociais Aplicadas), o caderno de registros da II Exposição do Projeto Resistências e (Re)Existências foi vandalizado com frase racista, já no ICHS (Instituto de Ciências Humanas e Sociais), uma estudante teria sofrido racismo da própria professora durante aula.

Em resposta a esses episódios, estudantes e coletivos reivindicam a criação de uma Ouvidoria Racial na UFOP. Após os três casos de racismo revelados em março, diversos coletivos organizaram protestos, incluindo uma oficina de cartazes anti racistas promovida pela República Terra de Godah. Durante os protestos, cartazes com a frase “Ouvidoria Racial já!” foram espalhados pelo campus, destacando a urgência de medidas efetivas contra a discriminação racial.

Atualmente, as denúncias de racismo na UFOP são encaminhadas à Ouvidoria da universidade, que as analisa e toma as providências necessárias. No entanto, a comunidade acadêmica acredita que uma ouvidoria especializada em questões raciais poderia oferecer um acolhimento mais eficaz e direcionado, além de promover políticas de prevenção e combate ao racismo de forma mais assertiva. A criação de uma Ouvidoria Racial é vista como um passo fundamental para garantir um ambiente universitário mais inclusivo e respeitoso para todos.

Questionamos a universidade sobre a promessa de revisão dos protocolos de acolhimento e direcionamento dos casos de racismo que envolvem a comunidade acadêmica.

Após a publicação, a Universidade Federal de Ouro Preto enviou uma nota em que repudia qualquer ato discriminatório e se afirma “cada vez mais como um ambiente de diversidade e respeito às diferenças, seja por meio de seus programas de ações afirmativas e de assistência estudantil, reconhecidos nacionalmente, seja por suas atividades de ensino, pesquisa, extensão e internacionalização”.

Além disso, a universidade alega não ter sido formalmente acionada sobre o episódio narrado e reforça sobre a importância de que denúncias sejam feitas pelos canais apropriados. “Quando ocorridos dentro do ambiente acadêmico, atos discriminatórios podem ser notificados pelo portal Fala.BR, para que sejam tratados pela Ouvidoria Geral da UFOP. Em se tratando dos crimes de discriminação ou preconceito previstos em lei, independentemente de onde ocorram, também é possível fazer a queixa em delegacias comuns ou especializadas”.

Ainda de acordo com a UFOP, “no caso de integrantes da comunidade acadêmica que sofrerem qualquer tipo de discriminação, a UFOP disponibiliza orientação e acolhimento por meio das estruturas de apoio da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace)”.

Em nenhum momento foi revelada para a nossa reportagem a identidade do autor, caso deseje, o envolvido pode apresentar sua versão dos fatos.

Foto de Larissa Antunes
Larissa Antunes é graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.