Realidade esperançosa

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Atualizado em 23/12/2024 às 11:12, por Andreia Donadon Leal.

Ouça o áudio de "Realidade esperançosa", da colunista Andreia Donadon Leal:

 audio 1.mp3 

“Eis a ingratidão

mais forte que a valentia

fere o próprio sangue…”

/apidata/imgcache/8d6a8af0440e37cb081093b7fbf8fad4.png?banner=postmiddle&when=1770968849&who=345

Creio, amigo Tyller, autor deste haicai sobre ingratidão, que esta passagem nos faz pensar na força feroz dos ingratos, que vem no mesmo status de um “golpe.” (…) Lembrei-me desta troca de saberes. Tyller, meu ex-professor de Literatura no ICHS/UFOP, é um homem elegante, culto e dedicado às traduções e à produção de poesias, ensaios, artigos… há tanto que se aprender com as pessoas cultas, éticas e educadas. Continuei pensando nas benfeitorias do professor… Uma senhora elegante e discreta sentou-se ao meu lado. Sorri. Ela retribui meu sorriso, dizendo que seu otimismo morreu. E de supetão, me perguntou se eu estava otimista ou pessimista com o mundo. Lembrei-me de Suassuna, ao responder à pergunta de um jornalista sobre o otimismo, disse que não se considerava um sujeito otimista (quem é otimista é tolo), enquanto o pessimista tem inclinação para a amargura. Dessa forma, “sou uma realista esperançosa.” Respondi a senhorinha com este aforismo que tanto aprecio. Ela me olhou com uma expressão incrédula, para depois concordar comigo. Abriu a bolsa e me entregou uma caixinha embrulhada com capricho.

“É sua.”

“Minha?”

“Presente que comprei para a minha filha que faleceu há três anos…”

Abracei-a, segurando o pranto. Abri o embrulho com o coração aos saltos. Era um pingente de Nossa Senhora Aparecida com pedras incrustadas de cristal.

“Minha mãe se chamava Aparecida.”

/apidata/imgcache/29dbe2d859113a8d297f76f1275030e8.png?banner=postmiddle&when=1770968849&who=345

Não compartilhei com a senhorinha que eu estava nostálgica, também. Saudosa dos natais e finais de ano passados na casa de meus saudosos pais. Foram quarenta e oito anos… A gente deve continuar sabendo que a vida é assim: todos vão; uns mais cedo, outros mais tarde. E a gente deve continuar honrando os momentos compartilhados e a história dos nossos pais, avôs. Deus tem mistérios que serão revelados em momentos especiais de nossas vidas, às vezes num encontro inesperado… Nosso encontro na Praça Gomes Freire, foi o toque sutil de Deus. Uma filha e uma mãe saudosas de seus entes queridos, recebem a visita da realidade esperançosa, tão adequada para contracenar com as guirlandas e sacadas iluminadas do tempo natalino.

A ingratidão? Que os ingratos se sentem nesta praça e sorvam vagarosamente o espírito de paz derramado das luzes de Natal!


Andreia Donadon Leal

Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros