O sol

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Atualizado em 24/05/2024 às 16:05, por Giseli Barros.

Ouça o áudio de "O sol", da colunista Giseli Barros:

 audio 1.mp3 

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O casal tinha um gosto em comum, a cor amarela. O quarto era lindamente ensolarado. Nas gavetas da cômoda, tonalidades variadas e bem-organizadas para facilitar a rotina. Fazia combinações perfeitas. Tudo preparado com muito zelo. A criança teria uma vida confortável. Ajustavam planilhas com todos os horários: alimentação, lazer, consultas, visitas, hora do sono, amigos, as festinhas. Diariamente, contava-lhe histórias. Narrava as aventuras do rei Sol que havia nascido para brilhar e iluminar a vida de todo o reino. Falava de um lugar distante, muito triste, porque as pessoas haviam perdido a capacidade de amar. Solitárias, viviam amarguradas, perdidas em noites infinitas. Certa vez, incomodado com a escuridão, o Sol tomou uma decisão. Reuniu todos os astros numa longa reunião, para mudar a rota do universo, deixando a luz chegar àquele lugar de pessoas tristes. Ele falava que ninguém deveria conhecer apenas a noite. E se emocionava ao lembrar que, certa vez, depois de muito trabalho, conseguiu fazer chegar o prenúncio da manhã, mas que, mesmo assim, o dia não pôde nascer. Sentiu-se, então, muito infeliz, porque o céu nem de estrelas se cobria, ficando com uma espessa névoa, que chorava constante de fina chuva.

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A criança contemplava a mãe e ficava aguardando o desenrolar da narrativa. Gostava de saber que o rei Sol era muito justo e esforçado. Vibrava ao ouvir sobre os planos do rei. Pedia a ela para contar novamente sobre o dia em que os astros conseguiram acolher o pequeno planeta, girando com toda a força, como um lindo carrossel, até o Sol irradiar a sua luz e calor pelo universo. E com seus olhos redondos e amendoados, enquanto crescia, mirava o céu e imaginava o mundo se transformando. Seria assim também. No entanto, no meio de planilhas e conjecturas, não percebiam o isolamento que se formava em torno da criança. Tudo de fora lhes parecia hostil. Recomendações intermináveis para a escola. Reclamações a todos que orbitavam em torno daquele que seria grande e justo. Riscavam nomes das agendas. Formavam, lentamente, uma barreira, uma redoma invisível. Quem estaria à altura da criança predestinada a uma vida promissora? Fariam o que fosse necessário para que o filho vivesse feliz. Aceitariam os sacrifícios para protegê-lo da aspereza do mundo. Planejavam. Guardavam os dias. Selecionavam.

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E o mundo seguia. O mundo se encolhia. Nas gavetas da cômoda, poucas tonalidades. Nem a janela do quarto recebia os dias com a mesma alegria. Nos pensamentos do menino, uma janela também se encobria com cortinas acinzentadas. Nem um girassol no quintal à procura do rei que era justo e bom. Se pudesse, com um único pedido, enviaria um sinal ou uma carta, pedindo a ele para abraçar o universo novamente, através da união dos astros, e que fizesse chegar ali o calor gostoso dos primeiros sonhos. Correria feliz entre outras crianças e contaria a elas as histórias de um mundo que deixou de ser triste, unindo-se a outros reinos com a ajuda de um rei que era sábio, humilde e generoso.


Giseli Barros

Giseli Barros é professora, mestra em Literatura Brasileira pela UFMG, membro efetivo da ALACIB-Mariana